MG_0419-scaled.jpg

Crónica do Festival – Parte VII

A maneira como “História Secreta da Aviação” de João Manso e “Campo” de Tiago Hespanha – os dois filmes exibidos ontem à noite no TAGV – se coadunam é prova como as produtoras nacionais como a Terratreme procuram edificar uma marca distinta e contínua por entre os trabalhos autoriais que promovem. Além disso, serve igualmente como sinal do empenho da programação dos Caminhos do Cinema Português em conjugar trabalhos cuja consonância lírica seja merecedora de destaque.

Tal conjugação é manifesto da ideia fulcral da música enquanto parte essencial do cinema e o Caminhos não descura tal dimensão da cultura portuguesa no que toca à 7ª arte. Facto notório, aliás, desde a cerimónia de abertura destas Bodas de Prata do festival, com o tributo de Stereossauro aos acordes de Carlos Paredes, e que desde então se tem propagado pelos grandes ecrãs de Coimbra, exibindo quer de curtas assinadas por artistas musicais como “Amor Quântico” de Paulo Furtado, quer de documentários sobre figuras lendárias como “Um Punk Chamado Ribas” de Paulo Antunes. A harmonia é temática igualmente presente em muitos dos trabalhos exibidos nesta edição, como se denotou com “Invisível Herói“, curta que presta homenagem às sonoridades culturais de Cabo Verde. E como certamente se denotará em “Variações” de João Maia, filme sobre a vida e obra de António Variações, um dos grandes cantautores da música nacional. Após a MasterSession “O Meu Cinema” com o realizador às 18:00 na Sala do Carvão da Casa das Caldeiras, o filme biográfico que já demonstrou provas de um grande sucesso no circuito comercial será exibido no TAGV às 21:45.

Igualmente oriundo de paisagens ditadas por acordes musicais é Rodrigo Areias, sobretudo na sua estreia em longa-metragem “Estrada de Palha“, musicada por Paulo Furtado. No entanto, após molhar os pés no experimentalismo neo-noir com “Ornamento e Crime“, o realizador mergulhou no mar da docuficção e emerge agora com “Hálito Azul“, uma descrição poética de Ribeira Quente, aldeia piscatória situada na Ilha de S. Miguel. Intercalando os retratos desta sociedade haliêutica com trechos de “Os Pescadores” de Raúl Brandão, o realizador mostra-se aqui cronista de uma morte pseudo-anunciada deste sociedade, captando olhares e vozes sinceras sobre o passado nostálgico e receosas do futuro desconhecido. Este novo trabalho de Rodrigo Areias será exibido hoje no TAGV às 15:00, antecedido da curta “Fordlândia Malaise” de Susana de Sousa Dias. Destaque ainda para a sessão das 17:30 composta pelas curtas “O Rapaz e a Coruja” de Mário Gajo de Carvalho e “Monólogos com a História” de Sol de Carvalho que antecedem “Viveiro“, longa-metragem de Pedro Filipe Marques que versa sobre o quotidiano de uma equipa de futebol distrital e que recebeu destaque na secção First Look do Festival Internacional de Cinema de Locarno.

Pedro Nora