No dia em que Coimbra se soma à lista de concelhos com risco elevado de infeção por Covid-19, o cineasta Rui Simões e a realizadora e académica Raquel Rato reuniram-se em torno da mesma mesa virtual para falar sobre “Cinema em Tempos de Crise”. Uns minutos após as três horas da tarde, assomaram em frente ao ecrã na companhia de Abílio Hernandez, professor aposentado da Universidade de Coimbra, convidado para assumir o papel de moderador do painel.
Crónicas
Entre o desabafo do cineasta José Barahona que afirmava que “isto com rock’n’roll é ainda melhor” e a subida triunfal a palco do ator Ruben Garcia que, num salto, galgou o fosso da orquestra, a Cerimónia de Encerramento da XXVI Edição do Festival Caminhos premiou o melhor da cinematografia nacional.
Vivemos tempos incertos.
Uma afirmação anteriormente classificada como dramática, mas que actualmente demonstra-se vulgar e quotidiana, não só no presente ano, mas certamente no futuro próximo. E apesar da ilação criativa da pandemia demonstrar-se promissora no que diz respeitos às lides de inspiração (sobretudo tendo em conta a tendência dos cineastas nacionais em captar imagens sob a lente da docuficção), as previsões da cultura nacional firmam-se actualmente num clima de incertezas que ameaça a exibição dos projectos cinematográficos em sala e o consequente financiamento de projectos posteriores. Acrescem a este cenário reptante diversos episódios controversos, como é o caso da aprovação da proposta de lei 44/XIV no final do mês passado, transpondo a Diretiva (UE) 2018/1808 para a legislação portuguesa de maneira impetuosa e quiçá míope. Em suma, o presente ano demonstra-se como um desafio. E se a natureza incógnita do futuro parece ser o seu único elemento actualmente previsível, 2020 veio incrementar a imprevisibilidade de todas as restantes arestas e agendas.
Volvido o seu quarto de século de existência celebrado no ano passado, o Festival Caminhos do Cinema Português regressa em 2020 com um novo ímpeto, bem mais destemido a que nos habituou. Seguindo a vertente mais heróica que a maioria dos educadores procura enfatizar nos livros de história, a organização do Festival aposta com um espírito de persistência cultural na confiança e coragem – quer dos espectadores, quer dos cineastas – em ir à sala de cinema nestes tempos incertos, de forma a ecoar o mantra actualmente publicitado nas redes sociais de #aculturaésegura. Mais que um apelo, trata-se de uma afirmação que a projecção audiovisual em sala é recompensadora, nem que seja enquanto refúgio das notícias e sensacionalismos alarmantes dos media. Um escopo que as transmissões internáuticas não possibilitam, por mais tentador que seja o seu aparente conforto publicitado.
No ano de estreia da sua mais recente longa-metragem, o realizador português Leonardo António protagonizou uma conversa que percorreu por palavras o caminho que o levou até ao cinema. “Submissão” (2020) foi selecionado pelos Stony Brook Film Festival (Estados Unidos da América) e PÖFF | Tallinn Black Nights Film Festival (Estónia) e estreia no dia 25 deste mês em Coimbra.
Cada vez mais, a nossa existência parece decorrer perante uma janela. No presente ano, tal exprime-se pelo enquadramento do nosso quotidiano, seja para apanhar ar puro nos serões domésticos ou interagir com os outros pelas variadas vias internáuticas. Em consonância com esta tendência, o próprio cinema foi-se reinventando perante tal moldura.
A nível narrativo, tal concordância evidenciou-se sobretudo nos thrillers. Basta ver o caso de “Janela Indiscreta” de Alfred Hitchcock, um conto caucionário de voyeurismo que entretanto serviu de infra-estrutura para muitos dos thrillers cibernéticos de hoje como “Host” de Rob Savage ou “Janela Aberta” de Nacho Vigalondo.
Após 177 filmes e mais de uma semana de festa, nada melhor do que fechar com chave d’ouro a XXV edição do Festival Caminhos do Cinema Português, contando assim com uma grandiosa e entusiasmante cerimónia de entrega de prémios que teve início pelas 21:45 na já conhecida casa do Teatro Académico Gil Vicente.
Com o acompanhamento musical da Big Band Rags, da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, e a presença de diversas figuras que contribuíram, contribuem e continuarão a contribuir para o panorama cinematográfico nacional.
A noite iniciou-se com uma breve introdução sobre o decurso da cerimónia e logo discursaram figuras da direção e organização do festival como Tiago Santos e António Pita.
Chegados à recta final deste quarto de século do Festival Caminhos do Cinema Português, celebra-se a variedade criativa das curtas da 7ª arte nacional.
Isto porque – exceptuando-se “Caminho de Casa” de Arlindo Orta, o cardápio deste último dia está repleto de curtas-metragens, entre as quais se assinala o regresso de Teresa Villaverde com “Où en êtes-vous, Teresa Villaverde?“, um documentário que pelo título poderia dar aparências de auto-biográfico.. mas, como a realizadora já nos habituou, trata-se somente de olhar pessoal não sobre a cineasta, mas sim sobre o Carnaval do Rio o desfile que a Escola da Mangueira fez em homenagem a Marielle Franco.
De facto, o formato curta denota-se como o mais popular de entre os autores cinematográficos de Portugal e os Caminhos deste ano não desmentem tal tendência. No entanto, aponta-se é um número menor de projectos de animação, embora o género se mantenha vivo com curtas como “Moulla” de Rui Cardoso, “O Peculiar Crime o Estranho Sr. Jacinto” de Bruno Caetano e “Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre” de Gabriel Abrantes. Esta última curta – que figurou na cerimónia de abertura – embora não seja totalmente de animação, envereda por uma mistura de animação computadorizada com imagem real, talvez um sinal de que os criadores de animação em Portugal estejam a preparar-se para abraçar as técnicas do CGI.
Vicente Alves do Ó é um cineasta com uma evolução muito peculiar, no sentido em que foi gradualmente criando e evoluindo um nome e respectiva marca de autor através dos trabalhos de bastidores. Através de guiões para telefilmes como “Monsanto” de Ruy Guerra ou “Facas e Anjos” de Eduardo Guedes, eventualmente inovou a sua lírica para o grande ecrã, onde assinou os argumentos para grandes sucessos de bilheteira como “Os Imortais” de António-Pedro Vasconcelos e “Kiss Me” António da Cunha Telles. Em 2005, dá o grande salto para a cadeira de realizador com a curta “Entre o Desejo e o Destino” e tal assento revela-se imediatamente confortável na sua faceta de esteticista narrativo. Isto porque apesar dos seus primórdios se situarem na escrita, Alves do Ó afirma-se acima de tudo como um autor com o visual em primeiro plano.


