Crónicas

Crónica do Festival – Parte VII

A maneira como “História Secreta da Aviação” de João Manso e “Campo” de Tiago Hespanha – os dois filmes exibidos ontem à noite no TAGV – se coadunam é prova como as produtoras nacionais como a Terratreme procuram edificar uma marca distinta e contínua por entre os trabalhos autoriais que promovem. Além disso, serve igualmente como sinal do empenho da programação dos Caminhos do Cinema Português em conjugar trabalhos cuja consonância lírica seja merecedora de destaque.

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O cinema pela lente de Paulo Carneiro

O Festival Caminhos do Cinema Português recebeu no dia 29 de Novembro, e penúltimo dia de festival, a última mastersession, após três dias dedicados a esta secção. O evento, intitulado de “O meu cinema”, realizou-se na sala de carvão, na casa das caldeiras, às 18h00, e contou com a presença do realizador, Paulo Carneiro, e do moderador, Sérgio Dias Branco

“Teimosia, trabalho e amor profundo naquilo em que se acredita”, foram as palavras chave do discurso de Paulo Carneiro, realizador da longa-metragem “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”, galardoado, na edição passada do festival, com o Prémio Imprensa CISION. Nascido em Lisboa e criado na Pontinha, retrata na sua longa-metragem, Bostofrio, uma pequena aldeia no concelho de Boticas, distrito de Vila Real, de onde é natural o seu progenitor. O desconhecimento sobre a identidade do seu avô paterno levou-o a deslocar-se até lá e gravar a obra cinematográfica, em exibição desde 7 de novembro, onde o próprio entra em contacto com residentes da área, para recolher mais informações sobre o seu antepassado. 

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Tiago Afonso e a arte de realizar sem imaginação

Tiago Afonso deu início à Mastersession de quarta na Sala do Carvão, na Casa das Caldeiras  com o tema “O Meu Cinema”. O atual docente da Universidade Lusófona do Porto realiza sobretudo filmes de teor documental, como filmes de intervenção e reflexão política, mas também obras de cariz autobiográfico e experimental. O realizador, não só exibiu alguns trechos dos seus filmes, como também refletiu sobre os mesmos. Falou sobre as suas próprias obras e criou uma ponte entre o seu processo de criação e, aquilo que é feito no cinema português.

Citando “As Portas da Perceção” de Aldous Huxley, o cineasta falou sobre a abertura da perceção humana e sobre a sua considerada “deficiência”. Tiago Afonso, ao contrário do resto das pessoas, quando pensa em alguma coisa não consegue associar uma imagem no seu cérebro ou seja, não é capaz de visualizar mentalmente. Este antagonismo entre imaginação e criação levou com que, segundo o realizador, o seu processo de fazer cinema seja distinto de todos os outros: “tudo o que preparo é para destruir”.

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Crónica do Festival – Parte VI

O final do dia de ontem permitiu um dos maiores voltefaces do Caminhos deste ano. Por motivos alheios à organização do Festival, o filme “Serpentário“, de Carlos Conceição foi retirado do cartaz e da competição. Em substituição, foi exibido o filme “Mutant Blast“, uma paródia de z***ies co-produzido pela norte-americana Troma que homenageia os inícios cartoonescos de Peter Jackson. Tendo já figurado na sessão Turno da Noite no sábado passado, a longa-metragem de Fernando Alle é assim promovida ao horário de destaque e ao estrato competitivo do Caminhos. Teve igualmente a honra de ser precedida pela curta “Invisível Herói” de Cristèle Alves Meira, que marcou presença no TAGV juntamente com o protagonista Duarte Pina para uma sessão de conversa com o público que se revelou calorosa e intimista.

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Crónica do Festival – Parte V

No que toca a escala, o imaginário dos cineastas sempre se viu limitado ao orçamento e não há campo que sofra tanto isso como o da ficção fantástica. Trata-se de projectos cuja propensão envolve à partida ambiciosos efeitos visuais, tal como manda e mandata a regra dos blockbusters americanos ou asiáticos desde a década de 50. Infelizmente, os limites do Instituto do Cinema e Audiovisual ou semelhantes instituições de apoio financeiro não permitem tal empreendimento visual a nível nacional. Ou sequer europeu.

Aliás, foi no velho continente que se originou um espécime cinematográfico que pega nas transcendências desse fantástico e molda as mesmas em torno da introspecção humana, de modo a fascinar em primeiro plano a alma e não tanto a visão, embora este último sentido não seja de todo ignorado. O cinema oriundo da então União Soviética foi notoriamente o primeiro a enveredar por tal abordagem mais filosófica. Com efeito, foram autores do outro lado da cortina de ferro como Karel Zeman ou Andrei Tarkovski que revolucionaram a estética estimulante da 7ª arte a cadências mais minimalistas.

Segue-se pois a década de 80, em que o cinema a nível global, temendo um futuro sem recursos monetários, começa-se afastar dos visuais futuristas e tecnológicos e a explorar precisamente os conceitos fatalistas da distopia pós-apocalíptica. Tais temáticas acordam com os temores que se vivenciavam do holocausto nuclear e do ser humano que, perante um mundo devasto, se vê reduzido à sua determinante convicção survivalista. Embora popularizado pela franquia “Mad Max” do australiano George Miller, muitos outros autores como Luc Besson (em “O Último Combate”) ou Andrzej Zulawski (com “On the Silver Globe”) deram seguimento a cenários distópicos mais pautados ou meditativos.

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Crónica do Festival – Parte IV

A chuva pela cidade de Coimbra não dissuadiu o público do Festival Caminhos que, na sessão de ontem de “Vitalina Varela“, se mostrou receptiva à presença de Leonardo Simões, director de fotografia do filme. O habitual colaborador de Pedro Costa – distinguido há um par de dias com o prémio de Melhor Fotografia do Festival Gijón – participou numa sessão de perguntas do público após o filme, esclarecendo alguns pormenores acerca dos bastidores da sua imagética. Um diálogo que serve enquanto exemplo de como o Festival Caminhos permite criar pontes entre os espectadores defronte o ecrã os artistas por detrás das câmaras. E após tal dia melancólico cujo clima pluvioso acentuou o caracter contemplativo do cinema de Pedro Costa, os Caminhos de hoje prometem apressar o passo com tons mais animados. Aliás, é precisamente uma obra de animação que abre este dia: “O Peculiar Crime do Estranho Sr Jacinto” que, após a sua estreia no Cinanima em Espinho, chega a Coimbra às 15h no TAGV. Trata-se de uma curta-metragem assinada por Bruno Caetano já há muito aguardada, dado que a técnica do stop-motion a que recorre tem caído algo em desuso, tornando-se cada vez mais refrescante rever este artifício de animação. Como ponto de contemporaneidade, a narração desta curta de temática ecológica está a cargo de Sérgio Godinho.

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Crónica do Festival – Parte III

Apesar da propaganda contrária, muita vezes derivada do mediatismo sensacionalista centrado somente nos nomeados aos Óscares e semelhantes sucessos de bilheteira, o cinema português de hoje em dia está vivo e de boa saúde, marcando presença única no globo cinematográfico, muito graças à sua exploração da docuficção. Aliás, Portugal afirmou-se como uma nação pioneira no que toca a esse tipo narrativo, com “Maria do Mar” de Leitão de Barros, uma das primeiras produções deste subgénero, antecedendo clássicos mais notórios como “A Terra Treme” de Luchino Visconti ou “Close-Up” de Abbas Kiarostami. E apesar desse marco cinematográfico infelizmente negligenciado pela maioria do público desatento ao campo histórico, é inegável como os cineastas portugueses de actualmente revelam uma vontade de ressuscitar tais temáticas intermitentes e hipnotizantes entre a realidade e a ficção, o sonho e a memória. É o caso de Tiago Siopa, cujo novo filme “Fantasmas: Caminho Longo Para Casa” abre o 3º dia do Caminhos, sendo exibido às 15h no TAGV. Esta nova longa-metragem do realizador português apresenta-se com uma investida que parte do fantástico mas, transpondo imagens documentais captadas no passado para o presente, promete ser igualmente uma reflexão surreal sobre a passagem de testemunhos entre vidas e gerações.

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Crónica do Festival – Parte II

Iniciaram-se ontem pela 25ª vez os Caminhos do Cinema Português, numa cerimónia de abertura que contou com várias surpresas. Aproveitando a presença de representantes do Instituto do Cinema e Audiovisual, da Direcção Regional da Cultura do Centro e da Universidade de Coimbra, nesta sessão inaugural reflectiu-se sobre as pegadas passadas e futuras que os Caminhos têm deixado sobre o campo cinematográfico do nosso país e apelou-se à descentralização e desconcentração artística e cultural, bem como a um movimento do público (na dupla vertente das entidades administrativas e das audiências da sala de cinema) no que diz respeito ao apoio mandatário à sobrevivência da 7ª arte nacional. Celebrou-se igualmente a presença de Isabel Ruth, actriz homenageada com a atribuição do prémio Ethos e com um espectáculo de dança e música que celebrou o icónico filme “Os Verdes Anos”. Prestado assim o devido louvor às glórias do ontem, vislumbrou-se o amanhã, com a exibição de cinco curtas-metragens que serviram de amostra a cada uma das secções distintas que durante a próxima semana estarão em exibição pela cidade de Coimbra. Esta mão cheia de curtas cinematográficas demonstrou a variedade criativa que se explanará pelos grandes ecrãs da cidade dos estudantes, cidade essa que se têm vindo a revelar nos últimos vinte e cinco anos como o palco ideal para a celebração deste fluir de ideias e imagéticas fílmicas.

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