Apesar da propaganda contrária, muita vezes derivada do mediatismo sensacionalista centrado somente nos nomeados aos Óscares e semelhantes sucessos de bilheteira, o cinema português de hoje em dia está vivo e de boa saúde, marcando presença única no globo cinematográfico, muito graças à sua exploração da docuficção. Aliás, Portugal afirmou-se como uma nação pioneira no que toca a esse tipo narrativo, com “Maria do Mar” de Leitão de Barros, uma das primeiras produções deste subgénero, antecedendo clássicos mais notórios como “A Terra Treme” de Luchino Visconti ou “Close-Up” de Abbas Kiarostami. E apesar desse marco cinematográfico infelizmente negligenciado pela maioria do público desatento ao campo histórico, é inegável como os cineastas portugueses de actualmente revelam uma vontade de ressuscitar tais temáticas intermitentes e hipnotizantes entre a realidade e a ficção, o sonho e a memória. É o caso de Tiago Siopa, cujo novo filme “Fantasmas: Caminho Longo Para Casa” abre o 3º dia do Caminhos, sendo exibido às 15h no TAGV. Esta nova longa-metragem do realizador português apresenta-se com uma investida que parte do fantástico mas, transpondo imagens documentais captadas no passado para o presente, promete ser igualmente uma reflexão surreal sobre a passagem de testemunhos entre vidas e gerações.
Crónicas
Iniciaram-se ontem pela 25ª vez os Caminhos do Cinema Português, numa cerimónia de abertura que contou com várias surpresas. Aproveitando a presença de representantes do Instituto do Cinema e Audiovisual, da Direcção Regional da Cultura do Centro e da Universidade de Coimbra, nesta sessão inaugural reflectiu-se sobre as pegadas passadas e futuras que os Caminhos têm deixado sobre o campo cinematográfico do nosso país e apelou-se à descentralização e desconcentração artística e cultural, bem como a um movimento do público (na dupla vertente das entidades administrativas e das audiências da sala de cinema) no que diz respeito ao apoio mandatário à sobrevivência da 7ª arte nacional. Celebrou-se igualmente a presença de Isabel Ruth, actriz homenageada com a atribuição do prémio Ethos e com um espectáculo de dança e música que celebrou o icónico filme “Os Verdes Anos”. Prestado assim o devido louvor às glórias do ontem, vislumbrou-se o amanhã, com a exibição de cinco curtas-metragens que serviram de amostra a cada uma das secções distintas que durante a próxima semana estarão em exibição pela cidade de Coimbra. Esta mão cheia de curtas cinematográficas demonstrou a variedade criativa que se explanará pelos grandes ecrãs da cidade dos estudantes, cidade essa que se têm vindo a revelar nos últimos vinte e cinco anos como o palco ideal para a celebração deste fluir de ideias e imagéticas fílmicas.
Embora nos seus bastidores nunca se deixe de marcar passo, o Festival Caminhos do Cinema Português regressa aos trilhos públicos da ribalta, naquela que é a sua vigésima-quinta edição. Atingindo assim um quarto de século de existência, o evento presta-se mais uma vez à sua tarefa anual de apresentar ao público português um cardápio variado da 7ª arte nacional, não só celebrando o seu passado e presente mas também vislumbrando-se o futuro. Nesse intento evolutivo, há espaço para novidades, como é o caso da Secção “Outros Olhares” que, no seu segundo ano, é promovida à categoria de índole competitiva, à semelhança da Selecção Caminhos. Recorde-se pois o intento do Festival em premiar os filmes exibidos no final de cada edição, quer pela apreciação crítica do seu Júri, quer pela opinião apurada dos espectadores, manifesta pelo Prémio Chama Amarela.
Foi em torno do cruzamento entre liberdade, arte e políticas que se desenrolou o último painel da XXVI Edição do Festival Caminhos do Cinema Português. Com um especial interesse pela história do cinema português, os professores e investigadores Paulo Cunha e Tiago Baptista surgiram no ecrã pelas três horas da tarde para falar de censura no cinema, políticas de financiamento e liberdade.
Para fechar a Seleção Ensaios, as novas tecnologias juntaram-se à solidão e ao conhecimento do “eu” às 17h30, na sala 6, dos Cinema NOS, no dia 1 de dezembro, propondo uma reflexão que a atualidade exige.
“Sleepless Nights…” de Maria Teixeira, “Irony” de Radheya Jegatheva, “Bruma” de Sofia Cachim , “O Chapéu” de Alexandra Allen, “Him&Her” de Nathalie Lamb, “Homesick” de Hila Einy, Yoav Aluf, Noy Bar e Bezalel, “Zeitgeist” de Oleg Kauz, “A Sweet Story” de Moritz Biene, “Drowning” de Pedro Harres e “Soulkeeper” de Théo Hoch foram as curtas que se reuniram no grande ecrã da sala de cinema. O controlo tecnológico, o medo do desconhecido e o desejo da aprovação social foram alguns dos temas centrais de uma tarde repleta de virtualidade.
A última tarde do Festival Caminhos do Cinema Português começa com a sessão da Seleção Caminhos no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV). “Entre o Verão e o Outono” de Maria Francisca Pinto, “Sleepwalk” de Filipe Melo, “Quando Pudermos” de Miguel Cardoso Faria e “Segunda-Feira” de Sebastião Salgado foram as curta metragens exibidas e, de forma a encerrar a sessão, foi exibida a longa metragem “À Tarde” de Pedro Florêncio. Recetivos às questões do público, estiveram presentes Filipe Melo, realizador de “Sleepwalk”, e Rui Mendes, produtor de “À Tarde”.
Na voz de quatro convidados debateu-se a importância de ir além da narrativa cinematográfica. O modo como os Conimbricenses vivem a oferta cultural da cidade deu o rumo final à conversa.
Discutir as mudanças na produção de cinema em Portugal foi a proposta apresentada por Sérgio Dias Branco, moderador da última MasterSession da XXIV edição dos Caminhos do Cinema Português com o tema “O valor de uma marca do/no Cinema Português” . O financiamento, o marketing e a cultura foram as temáticas abordadas ao longo da sessão do dia 30 de novembro.
No último dia do festival, as sessões não se esgotam. Da Seleção Caminhos, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, ‘À Tarde’ (15H) de Pedro Florêncio retrata o olhar sobre a luz, gestos e sons a partir do interior de uma casa em Lisboa, numa tarde banal de primavera.
‘Irony’ (17H30) é um filme integrante da Seleção Ensaios – que vai ter lugar nos Cinemas NOS do Alma Shopping. Um filme que explora a relação entre o Homem e a tecnologia, do ponto de vista de um telefone. ‘Bruma’ (17H30) é outra produção da seleção que exibe uma jornada emocional. Alice, após a morte do Pai, tenta encontrar uma maneira de ultrapassar a fugacidade do tempo e confortar-se. Uma jornada de autoconhecimento de uma adolescente que está prestes a descobrir o mundo.
A XXIV edição do festival Caminhos do Cinema Português tem vindo a preencher as telas da cidade. Obras internacionais são exibidas, mas, sobretudo, são as produções nacionais o motivo de celebração. Além disso, esta foi a primeira vez que o festival contou com a presença de um ator internacional: Dominique Pinon. O ator francês fez parte do elenco de “Caminhos Magnétykos” do realizador Edgar Pêra.
Os realizadores são uma parte fulcral de cada produção cinematográfica. O maestro que gere todo o ritmo e sinfonia da orquestra. Os Caminhos são um festival que primam por ser inclusivos, trazendo novos cineastas para o panorama cinematográfico nacional. Como tal, Bruno Gascon, Justin Amorim, Miguel Nunes e Ana Moreira tiveram os seus projetos selecionados e exibidos ao público de Coimbra. O festival prima por ser uma montra para o cinema português e tentar cultivar o seu consumo e gosto no público

