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Palmarés 31.ª edição

A 31.ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português revelou o seu palmarés, distinguindo obras que afirmam a diversidade, a inovação e a vitalidade do cinema nacional contemporâneo. Entre longas de ficção, documentários, animação e cinema universitário, o júri e o público premiaram filmes que tratam a memória, o território, a identidade e as novas linguagens cinematográficas. «La Durmiente», de Maria Inês Gonçalves, recebeu o Grande Prémio Cidade de Coimbra, enquanto «Paraíso», de Daniel Mota, reforçou o reconhecimento ao conquistar não apenas o Prémio de Melhor Documentário, mas também o Prémio do Público FILMin.

 

A 31.ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português, que decorreu de 15 a 22 de novembro de 2025 em Coimbra, Lisboa/Benfica, Penacova e Mealhada, anunciou os vencedores das suas várias secções competitivas. O festival, que apresentou mais de 121 filmes em 63 sessões, consolidou-se como a principal montra do cinema português contemporâneo.

A Cerimónia de Entrega de Prémios pode ser acompanhada em no YouTube do festival:

Prémios da Seleção Outros Olhares

Júri: Carolina Dias, Leonor Teles e Joaquim Pedro Pinheiro

Menção Honrosa Júri Outros Olhares

«Memento / Lembra-te», de Leonor Areal e Edgar Sardinha

O júri atribuiu uma menção honrosa “pela sua simplicidade e frescura na experimentação cinematográfica, através do casamento entre a imagem de arquivo, a música e sonoplastia. Leonor Areal lembra-nos que é possível fazer bons filmes com qualquer coisa, até mesmo com o conteúdo de um saco de plástico.”

Prémio CISION Melhor Filme Outros Olhares

«Memórias do Teatro da Cornucópia», de Solveig Nordlund (Real Ficção)

“Com a voz de Luís Miguel Cintra e imagens de arquivo, Solveig Nordlund leva-nos numa viagem ao lugar de resistência, questionamento, liberdade, inovação e brincadeira dos 40 anos de existência da Cornucópia, suas montagens teatrais e os incríveis cenários criados por Cristina Reis. Ainda bem que o filme guarda as memórias do Teatro da Cornucópia, já que o Estado Português foi incapaz de fazer o mesmo em relação ao riquíssimo espólio da companhia quando esta chegou ao fim.”

Prémios da SELEÇÃO ENSAIOS

Júri Universitário: Ana Miguel Regedor, Maja Kupczyk e Tomás Travelho

Menção Honrosa do Júri Universitário

«The Peel», de NanTung Lin (Universidade Lusófona)

“Esta obra, que proporciona uma multidão de sensações, penetra a pele e impregna a memória a partir da dor e do toque. A animação simbólica das forças invisíveis que oprimem um corpo faz-nos senti-las profundamente, reverberando um constante rasgar. O espaço testemunha uma quebra que pede reminiscência às sensações passadas da protagonista e de nós mesmos. Com uma animação que se liga à textura e à perceção sensorial, o cuidado na conjugação de métodos de animação, desde o pastel ao bordado, emerge como ponto de convergência estético entre a personagem e a dor. Uma viagem onde as sensações se tornam o mecanismo para a personagem se confrontar com o seu passado, através de um dos nossos sentidos mais primitivos.”

Prémio Universidade de Coimbra – Melhor Filme da Seleção Ensaios

«The Good Woman», de Masha Mollenhauer (Hamburg Media School)

“Este é um daqueles filmes em que vivenciamos coletivamente cada palavra, lágrima ou franzir de testa junto com a protagonista. A obra aborda questões sociais importantes, como o direito ao aborto, e revela de forma chocante as situações enfrentadas por mulheres em países onde a autonomia corporal é severamente limitada. É também uma história sobre o poder dos sonhos e como eles podem, por vezes, entrar em conflito com a realidade que a vida nos apresenta, e o preço que estamos dispostos a pagar por eles. O ritmo e a cadência deste ensaio são magistrais — eles constroem sutilmente a tensão sem jamais perder os momentos íntimos em que o espectador se conecta com a protagonista para sentir todas as emoções pungentes e contradições que a atormentam. O título do filme, ironicamente, mostra-nos a condição dos nossos tempos. Quem é a ‘boa mulher’? Aquela que realiza os seus sonhos ou aquela que atende às expectativas alheias?”

Júri Ensaios: Alexandra Ferraz, Edgar Morais e Vítor Hugo Costa

Melhor Ensaio Nacional de Animação

«Mãe da Manhã», de Clara Trevisan (Universidade Lusófona)

“Uma animação em stop-motion de rigor exemplar, com elevada atenção aos pormenores visuais e textura sonora exímia. A história de uma criatura mística ganha vida através da utilização inventiva de materiais não convencionais, resultando numa experiência visual verdadeiramente cativante e envolvente. Ao comer a noite, a manhã surge com uma luz de esperança em tempos de escuridão.”

Menção Honrosa Ensaio Nacional

«Um Adeus a Baco», de Margarida Kalinichenko e Vasco Souto (Universidade Lusófona)

“Este filme impactante aparece-nos como um ato de partilha generoso: construído com fotografias de um arquivo pessoal, aqui exposto. Sob pano de fundo está uma voz que relata na primeira pessoa, de forma crua e transparente, uma história íntima da convivência com um problema que atravessa a sociedade. Obrigado por este valoroso objeto artístico que é, simultaneamente, um gesto de coragem.”

Prémio para Melhor Ensaio Nacional

«Supervadios», de Ricardo Salgado (Universidade Católica do Porto)

“Esta escolha nasce da convicção de que a arte é, na sua essência, um ato de amor. O cinema é muito mais do que a soma dos seus recursos técnicos, e este filme exemplifica-o de uma forma admirável. Contar uma história com criatividade e verdade, tocando-nos profundamente, é um feito raro. Armado apenas de um telemóvel, o realizador partilha fragmentos íntimos da relação com a sua tia. A obra cativa-nos pela sua honestidade bruta e beleza de uma narrativa que sugere mais do que mostra, que nos faz ver para além do visível.”

Prémios da Seleção Caminhos

Júri FIPRESCI

Júri FIPRESCI: José Teodoro (Canadá), Michael Ranze (Alemanha) e Yasmine Bouchfar (Marrocos)

Prémio FIPRESCI – Melhor Longa Metragem da Seleção Caminhos

«As Estações», de Maureen Fazendeiro (O Som e a Fúria)

“Pelo seu êxtase contemplativo e capacidade sedutora de colapsar passado e presente, pela sua atenção terna às minúcias da vida humana e animal sempre florescente na maravilhosa região do Alentejo em Portugal, e pela sua fusão de arqueologia e cinematografia como meio de tornar a história legível numa paisagem, nós, os membros da Federação Internacional de Críticos de Cinema, estamos entusiasmados por atribuir o Prémio FIPRESCI a «As Estações»

Júri Caminhos

Prémios Técnicos e Artísticos

Melhor Som

Marcelo Tavares em «Sol Menor», de André Silva Santos

“O filme revela toda a sua força quando finalmente ouvimos uma flauta, num sopro que preenche o vazio e anuncia a despedida comovente do protagonista das memórias que, por fim, aceita largar. Até então, o silêncio era tudo o que habitava a personagem em luto. As escolhas de onde deixar espaço, para o silêncio, para a respiração ou para a ressonância emocional, são também formas de contar.”

Melhor Realização

Pedro Cabeleira em «Entroncamento»

“Num exercício de mise-en-scène que convoca todos, os reúne, interliga e chama para si, revela-se uma genuinidade poderosa no trabalho de Pedro Cabeleira. As coreografias de continuidade da ação de câmara, luz e atores, que entram e saem pelas portas das casas, dos carros e das ruas, conduzem-nos de forma fluente e ágil. Quando um realizador consegue entrar com a sua equipa em mundos que a sociedade tende a esconder, permitindo que atores cuidadosamente compreendidos se expressem plenamente, traz-nos uma luz imprevista, impedindo que a indiferença nos cegue.”

Melhor Montagem

Rita M. Pestana e Cláudia Rita Oliveira em «O Riso e a Faca», de Pedro Pinho

“O tempo relativiza-se nesta expedição diletante de um protagonista com uma curiosidade sem concessões. Conduzida pela montagem, esta aventura faz-nos percorrer todos os recantos, mantendo-nos na história o tempo que for preciso e despertando o desejo de ver e conversar ainda mais sobre o que estava calado, pelo medo que a nossa herança nos traz. Essa coragem de não se saber por onde ir é construída pelos cortes e escolhas ousados da montagem, que mantêm ritmo, limpeza narrativa, coerência emocional e integram de forma fluida todos os protagonistas do filme.”

Melhor Figurino

Maura Carneiro em «Sob a Chama da Candeia», de André Gil da Mata

“O trabalho de Maura Carneiro, é uma composição filigrânica que organiza a temporalidade das diferentes biografias narradas ao longo de um filme não-linear. Os figurinos são, aqui, pele e história destas figuras que se escondem atrás de gestos e de nostalgia, e é pelo que vestem, e como o vestem, que percebemos que cristalizaram numa ideia de si mesmas. A paleta de cores, que as liga ao espaço; o corte das peças, que determina os estados de espírito; a forma como são conjugadas, revelando os não-ditos e as imagens feitas, são um guião dentro do próprio filme. Um figurino, como nos ensina, pode, afinal, ser a própria personagem despida.”

Melhor Fotografia

João Ribeiro (A.I.P.) em «Os Caçadores», de David Pinheiro Vicente

“A fotografia que João Ribeiro assina é feita no equilíbrio entre o desprezo por aquela gentalha, birrenta, miúdos que se acham adultos, e a certeza de que estão de tal modo diluídos no papel de parede e dos frescos daquela casa, que a única forma de os filmar é expondo, como se fossem insetos, as suas culpas, as suas falhas e, paradoxalmente, a inocente cegueira na qual vivem. É um trabalho de composição, até pelo modo como vai protegendo o corpo de Miguel Amorim, sempre nu, e sempre livre, da imagem retórica que o sagrado poderia proporcionar e, desse modo, ajudando o filme a impor a sua tese: matamos sempre a melhor coisa que nos acontece.”

Melhor Direção Artística

Nádia Henriques em «Primeira Pessoa do Plural», de Sandro Aguilar

“Passamos metade da nossa vida despertos e a outra metade submersos em águas privadas, inúteis e inconscientes, que nunca recordamos. Este filme mostra o que habitualmente permanece vago. De olhos abertos, mergulhamos numa composição sublime onde a direção de arte, o guarda-roupa, a fotografia e o som se fundem numa atmosfera inebriante, densa e insubstancial. As categorias tornam-se inseparáveis, engrenagens de um mecanismo hipnótico de uma precisão implacável.”

Melhor Cartaz

Rita Lamas para «Duas Vezes João Liberada», de Tomás Paula Marques

“João é filmada a ser filmada por um realizador cujo olhar a invisibiliza, transformando a rodagem numa sequência de gestos inúteis. Entre a expectativa e a realidade da personagem que dá título ao filme, o cartaz usa materiais que evocam fragilidade da própria máquina do cinema, como neve e esferovite, para desenhar essa impossibilidade de fuga.”

Melhor Caracterização

Maria Almeida (Nani) em «Pai Nosso, os Últimos Dias de Salazar», de José Filipe Costa

“Por caracterização devemos considerar o contributo que a prática e a técnica prestam aos atores, acrescentando, sublinhando e trabalhando as emoções e o espaço silencioso onde as palavras não chegam. Em «Pai Nosso» esse trabalho é parte constitutiva e estruturante de um teatro de sombras, farsa ridícula e ensaio sobre a mentira que se viveu na Residência Oficial do Presidente do Conselho. Devemos-lhe o cuidado em não tornar ridícula, senão retrato dos arranjos – de coiffures e pinturas, como se dizia então -, a que o país se prestou e, em cada uma das personagens, com cada um dos atores, sublinhando a discrição que se pedia às senhoras, a elegância que distinguia os cavalheiros, e a revelação de mudanças que se avizinhava nos rostos das criadas. Este prémio é um prémio ao mérito como Maria Almeida serviu, a bem da nação de espectadores de hoje, o retrato miserável que se andou a pintar naqueles anos de fim de vida do infame Salazar.”

Melhor Banda Sonora

João Grilo em «Cão Sozinho», de Marta Reis Andrade

“As distinções entre música e imagem esbatem-se quando uma leva a outra. A banda sonora deste filme segue os traços do desenho, dando profundidade, densidade emocional e atmosfera de solidão, construindo e solidificando de forma sublime a ligação entre os personagens.”

Melhor Argumento

Pedro Pinho, Miguel Seabra Lopes, Luísa Homem, Marta Lança, José Filipe Costa, Miguel Carmo, Tiago Hespanha, Leonor Noivo, Luís Miguel Correia, Paul Choquet em «O Riso e a Faca», de Pedro Pinho

“«O RISO E A FACA» é um filme com vários argumentos: na realização, na montagem, nas paisagens, nas interpretações. O melhor está na cozedura que a equipa de Pedro Pinho propõe para um debate sério sobre as possibilidades que o cinema ainda oferece enquanto lugar de heranças e legados e campo para a memória futura. Pelo interior da narrativa principal, nos desvios que propõe e organiza para que desaguem no mesmo rio maior, opera-se a fixação não de uma tese, mas das múltiplas antíteses e hipóteses que atravessam o ecrã e ecoam num vocabulário e perspectivas que o próprio espetador ainda não tinha previsto, ou não encontrara forma de o expressar. Como um romance do final do século 19, nas narrativas que buscavam a confirmação do exótico e da aventura no desconhecimento de quem ouvia, também este filme vai convocando – e convidando – narrativas várias, de micro e grande escala, da pequena à grande história, onde podemos entrar e sair à medida do nosso medo, entusiasmo ou perplexidade face à evidência ou à contra-argumentação. É da ordem do maravilhoso que não cessa de nos interpelar, espectadores-leitores-ouvintes, desejando que a nossa presença não seja reativa, mas participativa. Mais do que um elenco de temas, este argumento oferece-se como um manual implicado com a responsabilidade sobre a memória e sobre os modos como pode ser perpetuada e construída. Romance do século XXI, este é um argumento sobre o modo como nos contamos na relação com a mitificação, até mesmo a do cinema como lugar de demonstração e revelação. A sua escrita é constitutiva de uma narrativa inebriante, responsável e, como os mais belos filmes, aberta para que não deixemos de nos projetar.”

Melhor Interpretação Secundária

Mina Andala em «A Memória do Cheiro das Coisas», de António Ferreira

“Com a sua enfermeira Hermínia, de Barcelos e a gostar tanto de papas de sarrabulho quanto é exigente e comprometida com a ética do cuidar, Mina Andala sublinha a importância dos invisíveis, dos precários e as não-pessoas, que sustentam uma comunidade sem nada pedirem em troca. Vivemos na dependência desses estranhos, e a atriz dá-lhes um rosto, rouba-nos o tapete onde esbanjamos a indiferença e diverte-se com o espanto dos outros, sem exibir nem se sustentar numa superioridade moral. O seu trabalho de composição pautada pela discrição, como a sua personagem, impõe-se enquanto trabalho interior, face a uma caracterização que poderia ficar na superfície da descrição. O que faz é de outra ordem: ajuda a estruturar um filme que também fala de violência sobre os mais desprotegidos, os profissionais que acreditam na sua profissão, servindo-a em vez de se servirem dela. É um trabalho de interpretação sustentado na ética do ator a servir um propósito, criando margem para que a ele nos afeiçoemos, no lado luminoso que oferece a um filme tão sombrio. A atriz faz do seu lugar, secundário, o centro salvífico e motor moral de «A Memória do Cheiro das Coisas»”

Melhor Interpretação

Catarina Avelar em «Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar», de José Filipe Costa

“No tempo em que se passa a história que se conta em «PAI NOSSO», a atriz Catarina Avelar estava no Teatro Nacional D. Maria II a protagonizar uma peça proibida há mais de trinta anos, O Tartufo, de Moliére, numa tradução que, até então, estava proibida. O seu autor, António Feliciano de Castilho, havia traduzido o texto para a primeira apresentação em 1901, usando os traços do Marquês de Pombal para criticar os homens providenciais. Mas o regime ditatorial instaurado em 1926, acreditava que esta versão levaria ao reconhecimento, pelo público, dos traços de Salazar na figura de um homem poderoso e manipulador. Mas em 1963, o regime queria fingir-se aberto, e autorizou a tradução, por acreditar que o perigo de identificação com outro homem providencial, saído daqui de Coimbra, chegado a Lisboa para salvar o país de si mesmo, já havia passado. Ver o que Catarina Avelar faz em «PAI NOSSO», interpretando a mulher que se construiu à sombra da ideia das próprias mulheres do país forjado por Salazar, é olhar para um período da história a ser convocado em cada gesto, sem o impor. É um trabalho de construção interior, de espera, observação, consciente apagamento, e de resistente sabedoria que o poder não está na luz nem na afirmação, na pose nem no espelho, mas na convicção de que o ator serve um papel, sem a preocupação da empatia nem no medo do repúdio do público. E, na forma como expõe as contradições e paradoxos de uma figura trágica também ela mulher adiada, por escolha e contexto, Catarina Avelar vinga-se, até, do desprezo vampírico com que são tratadas as atrizes chegadas à sua idade. Pega num papel, não o ostenta, não se serve dele, serve-o, e demonstra o pouco que sabemos da arte de representar, como se chamava à disciplina de interpretação quando começou a trabalhar. Premiar a sua interpretação é uma celebração do seu trabalho no filme, mas também premiar uma entrega que ficou apagada por outros nomes, num país que parece ser sempre pequeno, e que foi o país que Salazar conseguiu fazer vingar, e que mulheres como Maria de Jesus Caetano Freire, defenderam e materializaram. Obrigado por uma interpretação que é uma lição de história.”



Prémios Oficiais

Prémio FSS – Revelação Menção Honrosa

Tiago Schwäbl em «Sol Menor», de André Silva Santos

“Não existe essa coisa de não-atores, porque não existe essa coisa de ‘act natural’. Está-se em frente a uma câmara a fazer qualquer coisa que não se estaria a fazer se não houvesse uma câmara, e já se está a representar. Tiago Schwäbl pode não ser ator, o luto pode não ser o seu, e até poderia não saber música, nem ser professor, mas o que faz, e como faz, faz-nos acreditar no seu tempo, na sua travessia, na sua persistência silenciosa e dorida. É isso que faz um ator. Atribuímos-lhe uma menção honrosa que, não sendo o prémio revelação, é um prémio sobre a revelação de um ator, com pudor em sê-lo que, felizmente, agora existe em filme.”

Prémio Fernando Santos Sucessores – Revelação

Henrique Barbosa em «Entroncamento», de Pedro Cabeleira

“«Entroncamento» é, claro, um filme coral, trabalhando a codependência moral das personagens e gizando, com cada uma delas, a contracena essencial para percebermos como, no interior da falência social que o filme revela, se podem ainda encontrar restos de alguma humanidade ou, no limite, a assunção de que fazem o melhor que podem, e sabem. A personagem interpretada por Henrique Barbosa, Gilinho, é em si mesma uma reflexão sobre como se pode ser vítima e carrasco, de si mesmo e na consequência das condições sociais que assim o definiram. Bastaria uma cena, a mais evidente mas provavelmente a mais difícil, para fazer desta personagem a revelação dos limites para o que cada um pode salvar de si mesmo. Gilinho está a pedir à mãe que o ajude a explicar o que ainda pode fazer, antes que seja tarde. Mas, na verdade, em todo o filme, a violência que a personagem expõe é demonstrada pelo ator como um exercício de composição sobre os imponderáveis e os impulsos que a velocidade das coisas justifica. O prémio de revelação vai para um ator que não se esconde nas sombras de uma personagem, usando a seu favor o que sobre ela não se pode saber, porque da ordem do incompreensível: porque é que não se escolhe outro caminho. Henrique Barbosa nunca julga a sua personagem, carrega as suas contradições, equilibra os seus contrastes, e trabalha o que existe antes e depois da narrativa do filme como matéria para materializar o mais difícil: acreditar no que estamos a ver.”

Prémio “União de Freguesias de Coimbra” Melhor Animação

«Cão Sozinho», de Marta Reis Andrade

“A excelência narrativa e técnicas aplicadas num estilo visual distinto e original para contar uma história verídica e comovente levou o Júri Caminhos a atribuir a melhor animação ao filme Cão Sozinho.”

Prémio Melhor Documentário

«Paraíso», de Daniel Mota

“Os documentários servem vários princípios, mas raras vezes nos forçam à reescrita da história, e da grande história. O que Daniel Mota faz em «Paraíso» é transformar a efemeridade e o inebriamento numa leitura do país pós-revolucionário e, em particular, da primeira geração que cresceu já em liberdade. É com espanto que vemos desfilar um mapa sonoro, social, geográfico que reformula as fronteiras entre a ação política e o quotidiano. Percebemos que não foi, e isso deve-se a um filme que trata o fenómeno de um paraíso chamado Portugal como um retrato seríssimo sobre a transversalidade latente num gesto nas vésperas de ser mercado, formato e estratégia. Este é um filme que trata a cultura underground como documento histórico, num trabalho de edição especialmente feliz, assinado por Henrique Brazão, e onde os depoimentos, emocionados e necessariamente nostálgicos, sem serem revisionistas, nos ensinam como pode ser escrita e cumprida a liberdade. Ao premiar «Paraíso», estamos a premiar a história social coletiva, e a celebrar os que a ajudaram a fazer, na pista de dança e na cabine do DJ. Saibamos estar à altura desta utopia.”

Prémio Melhor Ficção

«Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar», de José Filipe Costa

“«Pai Nosso» demorou mais de 50 anos a ser feito. O tempo que os historiadores dizem ser necessário para que a história possa começar a ser feita. Fazê-lo constitui um ato político fundamental para podermos compreender como a história se constitui a partir da farsa. É um filme seríssimo, sobre a tragédia que se abateu num país ainda hoje ansioso por homens providenciais. É um filme que precisou de tempo para, nos tempos que agora vivemos, polarizados mas não na definição da ética que permite um debate sério e respeitoso, encontrar o eco acertado sobre o que é mentira e o que foi verdade. É tratado com a gravidade de um espelho denunciador do país mantido ao largo da verdade. Hoje diríamos não ser possível, porque todos querem ser próximos, humanos, normais. O filme de José Filipe Costa demonstra como é tudo ficção, até o discurso que os políticos fazem sobre si mesmos e este «Pai Nosso», nosso porque sobre nós, é um filme sobre um país que ajudou a alimentar a mentira, perguntando que mentiras estamos hoje dispostos a aceitar. É um filme fundamental, que nos informa, e diverte, que nos interpela e nos atinge em cheio na definição que queremos ter sobre a causa pública, e de como somos responsáveis pela denúncia do aparato. Esperamos que, quando estrear, possamos, juntos, matar finalmente o pai.”

Grande Prémio Cidade de Coimbra

«La Durmiente», de Maria Inês Gonçalves

“Uma corte em miniatura conspira e especula sobre a vida de uma pequena rainha. Sem idade para ter destino, Beatriz é levada para terra estrangeira, e nós queremos acompanhá-la, como as damas, sem largar por um segundo o murmúrio ternurento daquelas conversas. Às vezes vamos ao cinema e, de surpresa, sofremos um encandeante golpe. A nossa pulsação acelera e o espírito enche-se de preces. Com uma realização de grande sensibilidade e uma direção de atores de precisão delicada que valoriza a participação do elenco, envolvido tanto na escrita como na performance; com uma direção de arte minuciosa e um suporte técnico que sustenta cada gesto, «La Durmiente» revela uma cineasta capaz de construir um mundo inteiro com rara elegância.”

Prémio do Público FILMin

Prémio do Público – FILMin

«Paraíso», de Daniel Mota

O público escolheu premiar este documentário histórico sobre a cultura rave em Portugal, confirmando o interesse pela memória coletiva de uma geração que descobriu a liberdade nas pistas de dança.

A 31.ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português confirmou a vitalidade e diversidade da produção cinematográfica nacional, premiando obras que vão desde a animação experimental à ficção histórica, do documentário sociológico ao cinema de autor contemplativo. Com júris compostos por profissionais nacionais e internacionais, os prémios refletem não apenas a excelência técnica e artística, mas também o compromisso do cinema português com a memória, a reflexão crítica e a inovação estética. A 32.ª edição realizar-se-á de 14 a 21 de novembro de 2026.

 

 

Palmarés por filme

 

 

«Pai Nosso, os Últimos Dias de Salazar», de José Filipe Costa

  • Melhor Ficção

  • Melhor Interpretação (Catarina Avelar)

  • Melhor Caracterização (Maria Almeida “Nani”)

«Paraíso», de Daniel Mota

  • Melhor Documentário

  • Prémio do Público – FILMin

«O Riso e a Faca», de Pedro Pinho

  • Melhor Montagem (Rita M. Pestana e Cláudia Rita Oliveira)

  • Melhor Argumento (Equipa de Argumento)

«Entroncamento», de Pedro Cabeleira

  • Melhor Realização (Pedro Cabeleira)

  • Prémio Revelação (Henrique Barbosa)

«Sol Menor», de André Silva Santos

  • Melhor Som (Marcelo Tavares)

  • Menção Honrosa – Revelação (Tiago Schwäbl)

«La Durmiente», de Maria Inês Gonçalves

  • Grande Prémio Cidade de Coimbra

«Cão Sozinho», de Marta Reis Andrade

  • Melhor Banda Sonora (João Grilo)

  • Prémio Melhor Animação “Freguesia Cidade de Coimbra”

«As Estações», de Maureen Fazendeiro

  • Prémio FIPRESCI – Melhor Longa-Metragem

«Os Caçadores», de David Pinheiro Vicente

  • Melhor Fotografia (João Ribeiro)

«Sob a Chama da Candeia», de André Gil da Mata

  • Melhor Figurino (Maura Carneiro)

«Primeira Pessoa do Plural», de  Sandro Aguilar

  • Melhor Direção Artística (Nádia Henriques)

«Duas Vezes João Liberada», de Tomás Paula Marques

  • Melhor Cartaz (Rita Lamas)

«A Memória do Cheiro das Coisas», de António Ferreira

  • Melhor Interpretação Secundária (Mina Andala)

 

Seleção Outros Olhares

«Memórias do Teatro da Cornucópia», de  Solveig Nordlund

  • Prémio CISION Melhor Filme Outros Olhares

«Memento / Lembra-te», de Leonor Areal e Edgar Sardinha

  • Menção Honrosa Júri Outros Olhares

Seleção Ensaios

«The Peel», de NanTung Lin

  • Menção Honrosa do Júri Universitário

«The Good Woman», de Masha Mollenhauer

  • Prémio Universidade de Coimbra – Melhor Filme da Seleção Ensaios

«Mãe da Manhã», de  Clara Trevisan

  • Melhor Ensaio Nacional de Animação

«Supervadios», de Ricardo Salgado

  • Prémio para Melhor Ensaio Nacional

«Um Adeus a Baco», de Margarida Kalinichenko e Vasco Souto

  • Menção Honrosa Ensaio Nacional

 

 


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