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“Elo”, de Alexandra Ramires: “Há um lado de beleza naquilo que é assustador”

Foi a partir do Porto que Alexandra Ramires, mais conhecida por Xá, falou da sua mais recente criação, a curta-metragem “Elo” (2020). Este filme de animação estreou em Coimbra no dia 20 de novembro e integra as Secções Competitivas – Seleção Caminhos. 

O trabalho mais recente de Alexandra Ramires conta já com o carimbo do 56.º Festival Internacional de Cinema de Chicago, tendo ganhado o prémio principal da competição (o Hugo de Ouro). “Uma bela paleta invertida de preto-e-branco atrai-nos imediatamente e uma grande quantidade de silêncio mantém-nos lá”. São estas as palavras do júri sobre a curta-metragem de animação “Elo”.

Na última sessão do ciclo “O Meu Cinema”, a cineasta discorreu acerca do processo criativo para a curta “Elo”, do seu percurso e da técnica que o cinema de animação envolve.

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O elo que une Xá ao cinema de animação

Sinopse original – Durante um dia anoitecido, dois personagens com fragilidades simétricas procuram adaptar-se.

Com a produção da Bando À Parte, “Elo” nasceu após cerca de um ano e meio de trabalho. A curta-metragem dura 11 minutos e recebeu distinção em Chicago “pela fusão perfeita de beleza e horror”.

Sobre a origem da sua criação, a realizadora revela que a personagem principal surgiu quando procurava imagens de arte bruta, onde encontrou “um extravasar de proporções”. “Havia umas personagens com a cabeça pequenininha e com o corpo grande”, o que revelava falta de inteligência. Explica que foi daí que nasceu a ideia de associar uma característica física a uma psicológica.

“Gosto de ler quando não há ilustrações. Não é dada imagem nenhuma, tem de se imaginar. Depois disso, surge algo com potencial para se desenvolver”, afirma. Mas completa ao dizer que “não é sempre assim”. Quando deitou as mãos à curta “Água Mole” (2017), com Laura Gonçalves, o processo foi diferente – principalmente por se tratar de uma peça documental, que envolve o mundo real.

Quanto ao sentido estético da obra, a realizadora conta que há nela uma repulsa pela beleza perfeita e acabada. “Há um lado de beleza naquilo que é assustador e no medo”, constata. Tecnicamente, a animação da curta-metragem foi ilustrada ‘frame’ a ‘frame’, tendo sido depois tudo fotografado.

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“Há algum pudor em dizer que se gosta de animação”

Foi em 2009 que Xá deu os primeiros passos no terreno da animação, ano esse em que se juntou ao estúdio Sardinha em Lata. “Foi onde conheci as pessoas com quem trabalho até aos dias de hoje”, conta. Acrescenta ainda que foi aí que conheceu a sua parceira Laura Gonçalves e que, desde então, se mantiveram juntas nos projetos. “A maior escola foi ver outros realizadores a trabalhar”, declara. 

Alexandra Ramires afirma que o seu formato favorito em cinema é a curta-metragem porque, além de ser “um espaço de experimentação incrível”, dá lugar a “uma linguagem mais poética”. Entre risos, declara que nem se permite pensar em fazer longas-metragens. “Parece-me tão utópico que tenho medo de projetar essa possibilidade”, afirma, sublinhando que é muito caro fazer uma longa-metragem de animação.

A realizadora sente que a categoria de animação é posta de lado no cinema. “Sinto que há algum pudor em dizer que se gosta de animação”, elucida, e reforça ao dizer que este género se toma “como uma coisa infantil e infantilizada, mas é mais do que isso, principalmente a de autor”. Conclui, dizendo que “é um nicho que os teóricos ainda não descobriram, mas tem muito para ser trabalhado”. 

“O próximo filme que hei de fazer é um documentário e é sobre o Algarve, que é de onde eu sou”, revela a realizadora. Sobre o seu próximo projeto diz que “mais do que uma imagem, são vivências”. Já no final da sessão, Xá apontou como inspiração para o seu trabalho a curta de Michaela Pavlatova, “Reci Reci Reci” (1991). 

Para assistir à última conversa virtual da XXVI Edição do Festival Caminhos do Cinema Português, carregue aqui.