Discurso de Encerramento: “Afinal, ninguém viu o andaime atrás da tela, pois não?”

Como é que se redige um discurso de encerramento de um evento que continua até meados de dezembro?

Será da mesma forma com que se encara a constante reformulação de um programa? Talvez. Talvez seja essa a fórmula possível para encarar os desafios de hoje. Avançar, analisar, reformular. (Re)programar.

Os desafios de hoje permitiram renovar toda a equipa e voltar a preencher as telas da cidade de luz. Uma luz que iluminou de novo a Avenida e que trouxe consigo a expectativa de voltarmos a ter um cinema de proximidade, de bairro, em que o espectador é participante e é colocado em estreito contacto com os criadores.

Os Caminhos são isso. Um percorrer coletivo que se dilui num conjunto de secções competitivas e mostras paralelas que dão a conhecer um cinema português que não é marginal, mas que é marginalizado pela exibição comercial. Os Festivais são, por isso, um elo que nos liga:

Espectadores,

Produtores,

Criadores,

Novos talentos.

E onde? Aqui mesmo! Na periferia, longe das duas áreas metropolitanas onde se julga que tudo acontece. Mas acontecerá?

Cremos que mostrámos sobretudo como os Caminhos são comuns a novos e a consagrados criadores. São espaços onde em conjunto nos defendemos das pandemias que nos assolam. Não é só a Covid-19… É também a substituição da experiência cinemática pelo pequeno formato, pelo ‘streaming’ e, sobretudo, a substituição do coletivo pelo individualizante, pelo isolamento, pelo confinamento.

Mas nem os nossos confinamentos foram tradicionais. Impomos a conversa em linha com profícuas reflexões sore o poder do cinema e a sua inter-relação com as artes, as políticas e as liberdades. Mais… com a educação e a tecnologia. Afinal, é agregando que o cinema mostra a sua força artística, a partir da evolução medial e assim construindo as pontes da intertextualidade.

Não se quer com este discurso competir com o mérito dos trabalhos desenvolvidos nas “Fusões no Cinema”, mas sim referir que o atingimos neste ano sobretudo atípico. Quando todos migram em exclusividade para o online, nós quisemos estar ‘on the spot’.

Foi esta a nossa estratégia para encarar os desafios impostos, tomando uma direção coletiva, conjunta e agregadora. Os passos foram difíceis, arriscados, de loucos e com algum xanatismo.

Afinal, ninguém viu o andaime atrás da tela, pois não?

O andaime – por brincadeira e por ocasião – acaba por ser uma posição que marca esta edição perante a indefinição que neste momento nos assola. Estamos em plena fase de audiência pública do concurso de apoio à realização de festivais em território nacional do ICA e verificou-se, pela classificação das candidaturas, uma tendência para a metropolização destes eventos cinematográficos. Será a resposta para quebrar com as assimetrias da oferta cultural deste país?

O andaime é ainda a posição que nos permite ver o próximo ano com relativo otimismo. Capacitamo-nos em parte, mas queremos mais, queremos fazer melhor.

Dependemos de vós.

Obrigado!


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