AS RAZÕES DA HISTÓRIA ACABAR
I
Houve um momento específico em que senti a necessidade de articular as memórias que fui acumulando de forma babelesca. Não que estivesse até então alheio ao que se passava em meu redor, apenas confortável e artificialmente protegido por uma maré do deixar acontecer. Fui acumulando pessoas e sentimentos, lembranças felizes e eventos traumáticos – mas sem nunca querer procurar o fio que unia isso tudo.
Coimbra tinha-me recebido como uma incubadora e agora eu estava grande demais para continuar a caber nela. Fui excessivamente protegido, tinha tudo demasiadamente programado e por isso encenado, estável e apenas exteriormente coerente. Com 26 anos tinha vivido uma vida que Coimbra tinha tecido para mim como as parcas romanas: estudei, cultivei-me culturalmente, conheci os primeiros corpos, as primeiras partilhas de amizade genuína, trabalhei, ri e chorei como todos aqueles que se recusam a crescer. Mas cresci com esse currículo pré-estabelecido de crescer em Coimbra.
Nessa manhã estava sentado na esplanada, a tomar café e a fumar o meu último cigarro matinal naquele sítio. A porta imediatamente ao lado, a do prédio onde habitava, abria e fechava sucessivamente. Vários homens carregavam móveis, sofás, equipamento de cozinha e caixotes pesados que suportavam oito anos do início da minha adultícia. “A minha vida em caixotes”, pensei. Era verão, estava sol e por isso não me senti encavacado ao colocar os óculos de sol para ocultar as lágrimas de um arrependimento momentâneo de fugir. Olhei para o prédio onde vivi e olhei para o edifício onde trabalhei. Encarei a janela da última mulher que gostei amorosamente.
A minha mãe chegou e sentou-se ao meu lado em silêncio, olhando para aquela marcha fúnebre do meu passado. “Então?”. Choro. “Estás a tempo de mudar de ideias. Fica, filho. Fica! Eu sei que aqui és feliz! Nós não levamos a mal!”. Não fiquei, o meu orgulho foi demasiadamente forte para conseguir seguir a razão ou a emoção – todo eu estava ferido, as máscaras de toda aquela pantomima estavam a cair, só precisava de colo. Não de qualquer colo, mas o da minha mãe e da minha casa, para voltar ao ventre e assim renascer, conseguir dar vida àquilo que esteve em gestação dentro de mim demasiado tempo.
No dia anterior despedi-me por completo daquela cidade, sem nada ou ninguém se aperceber verdadeiramente que iria embora. Que iria fugir. Estive com todos os que mais me marcaram, incluindo os que não via há demasiado. Visitei a varanda onde pela primeira vez beijei alguém à luz de uma lua cheia. Fui à faculdade de direito onde no passado experienciei uma tentativa académica de formatação de mente, subi até à torre da Cabra e contemplei o Mondego tal qual D. João V no Pátio das Escolas. Bebi, fumei e organizei um jantar em minha casa onde transmiti o sentimento de um “até amanhã” e não de um “adeus”. Não lavei pratos ou panelas, enfiando tudo dentro dos caixotes ainda com aqueles restos de celebração, enrolados pela toalha com nódoas de vinho e risos. Gostava demais daquilo, mas precisava Ser.
Saí da casa vazia com os meus pais e irmã, os pilares que mais carecia para me suportarem nessa transformação. Quis deitar praticamente tudo para trás, para me dar oportunidade de me rechear ex novo com as experiências que me proibi viver ou ocultamente vivia. Deixei as chaves no correio. “Acabou”.
Saí de Coimbra e só consegui abrir os olhos quando estava quase a chegar a casa dos meus pais. Não conseguia ver o que estava a deixar, do que estava a fugir, nem sequer pensar porque é que o estava a fazer. Fui comprar roupa nova e inúmeros livros e filmes, tudo para evitar mexer nas malas que trazia. Não comprei uma única camisa ou calças de sarja e nem sequer olhei para os mocassins, juntei desenfreadamente todas aquelas peças que sempre quis utilizar e evitei. Desliguei o telemóvel durante semanas, a minha cobardia não me permitiu justificar nada a ninguém.
Passei todo esse tempo isolado a pensar e a sentir ao máximo a dor associada a essa fuga, queria libertar-me rapidamente daquilo, queria erguer-me, tinha pressa, mas precisava de algo.
Durante esse estágio de insulação, fui quinze dias para a praia para as típicas férias familiares. Ao contrário de todos os outros anos, não houve nunca momentos de ansiedade de ir embora – não tinha ninguém nem nenhum lugar para ir. Senti-me livre, independente, capaz de fazer o que quer que fosse pois tudo seria novo e já definido por mim. Foi então que me decidi vestir e arranjar o cabelo. Olhei-me ao espelho e começou a surgir aquilo que há muito não sentia: uma identificação com o reflexo! Não era o obeso formal de outrora e sim um jovem de corpo vulgar e pronto a viver.
A minha volta incluiu o reabrir de caixotes que tanto adiei. Envolveu perder o sentimento de liberdade absoluta que foi substituído por uma prisão a mim. Era só eu. Liguei finalmente o telemóvel e decidi experimentar algo que sempre critiquei, percebendo que se o fazia no passado foi por uma mera projecção da minha sombra no outro. Instalei uma aplicação de encontros e abri um talho imenso de corpos, conversas repetitivas e vazias, uma tentativa colectiva de foder apenas porque sim. Fui vendo fotos, apercebendo-me de uma nova linguagem que desconhecia (e passei mais tarde a dispensar por completo), novos conceitos e estereótipos, encontrando penas solidão e carência ali unidas por uma aplicação.
Tendo eu colocado como foto de perfil uma imagem de um filme do Xavier Dolan, por considerar ironicamente adequado, soube que não iria despertar grande interesse ali. As conversas cansavam-me e até perdi vontade de ver pornografia por tanta exposição genital que recebia. No meio daquela versão judaica de Sodoma, um Menelli aborda –me com uma pergunta: “Gostas de Dolan?”. A imagem dele não revelava a cara ou corpo, apenas uma camisa com flores e uma barba morena. “Gosto de cinema em geral”, respondi. Quando nos apercebemos já tinham passado duas horas e estávamos numa aplicação de encontros sexuais a falar sobre cinema, música, viagens e até de espiritualidade. “Vamos fumar um cigarro num sítio que filmaríamos e continuar a conversa?”, perguntou. Demorei muito a conseguir responder, apagando e voltando a escrever uma série de desculpas. Quando a objecção que estava a compor começou a ultrapassar as dez linhas de texto, apaguei tudo e apenas escrevi: “Sim.”
Obviamente que já tinha estado com outras pessoas antes de conhecer o Roberto. Mas foi a primeira vez que senti que aquilo que me motivava sair de casa ao encontro de alguém não era o sexo, mas uma estranha cumplicidade criada virtual e imaginativamente.
A pressa em continuar aquela conversa foi tanta que fui vestido tal qual tinha vindo da praia. Quando passei a montra de uma loja, segundos antes de chegar ao nosso ponto de encontro, e vi no reflexo aquilo que vestia percebi que, de facto, não era a apresentação e o externo que me preocupavam naquele momento da minha vida, era conteúdo.
Ele já lá estava, no topo das escadas que ambos tínhamos fotografado, a sorrir para mim e não desviando o olhar até eu me aproximar. Não nos cumprimentámos, apenas nos sentámos juntos ao mesmo tempo, como se tivéssemos escrito o argumento daquele momento, mas só naquele ápice nos recordámos. “Afinal esta cidade é pouco cinematográfica”, começou a conversa, “ao menos que tenha boa banda sonora”. Pegou no telemóvel e meteu a correr um álbum dos Tame Impala que definiu a duração daquele encontro. Não houve uma única situação de silêncio, a fome em nos conhecermos era enorme e deslumbrante. Tínhamos o cinema e a música em comum e mesmo com um mar gigante a separar-nos algo nos uniu naquele momento.
Nessa noite tinha um prazo a cumprir para entrega da selecção final no festival onde sou programador, tendo sido a desculpa perfeita para ir embora. Por muito que pareça contraditório, à medida que aquela conversa e cumplicidade aumentavam eu sentia necessidade em me isolar para perceber o que aquilo era. “Tenho de ir”, interrompi-o. Segundos depois responde “Foi muito bom, foi tão diferente”. Levantámo-nos e decidi arriscar, dando-lhe o abraço mais rápido do mundo, o qual ele se riu e disse “Depois melhoramos as nossas despedidas!”. Ri-me e separámo-nos. Olhei para trás e encontrei o seu olhar também. Sorrimos e fui para casa ouvir música e viajar na minha imaginação da qual ele começou a fazer parte.
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