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Entrevista de João R. Pais à curadora Tathiani Sacilotto

No âmbito da 31.ª edição do Caminhos do Cinema Português, inaugura no dia 15 de novembro, às 15h, a exposição «Nem Musa, Nem Sombra», no Estúdio 1 (7.º piso, Edifício Avenida). A mostra permanecerá aberta ao público, mediante marcação, durante todo o festival, celebrando e dando visibilidade às mulheres que constroem o cinema e o audiovisual em Portugal — diante e atrás da câmara.

João R. Pais –  Quando te desafiámos para fazer curadoria para esta exposição, tínhamos como título provisório O Trabalho da Mulher no Cinema». O escopo era dar ênfase a trabalhos desconhecidos no cinema e dar palco às mulheres. Porém, apresentas hoje a exposição com o título «Nem Musa, Nem Sombra». Que nome potente e simbólico! Teve que ver com o teu contacto com todas as mulheres? Como chegaste a esse título?

Tathiani Sacilotto – Eu também imaginei que seria «O Trabalho da Mulher no Cinema» para mostrar as mulheres no cinema e no audiovisual. Mas, ao começar o contacto com as participantes, percebi que a exposição precisava tomar outra forma, embora eu ainda não soubesse exatamente qual era.

Aconteceu, que comecei por sentir um incómodo muito grande quando pedia as fotografias destas mulheres em cotecto de trabalho e percebia que 90% delas não tinham nenhuma. Aí, fui procurar as minhas e foi bem difícil encontrar uma. Tal como acontecia com as outras mulheres, as minhas fotos são antigas.

Eu só pedia uma foto e, a partir daí, começou uma partilha de histórias que eu nem imaginava que uma simples imagem em contexto de trabalho pudesse gerar. Foram histórias generosamente compartilhadas comigo, e todas tinham pontos em comum.

O título «Nem Musa, Nem Sombra» nasceu desse simples pedido por uma foto em contexto profissional e das histórias que foram partilhadas comigo. Foi algo muito forte, que revelou o quanto ainda estamos e nos sentimos invisibilizadas.

João R. Pais – Isso dá toda uma outra camada à exposição de que não estávamos à espera. Mas , dizes que a procura dessas fotos fez desenterrar muitas histórias. Sem revelar muito, que tipo de história? De oportunidades laborais no meio do cinema?

Tathiani Sacilotto – Histórias que partilharam de renúncia por motivos de trabalho, violência dentro e fora do plateau. Histórias de mulheres que trabalharam em vários filmes e não encontram uma foto que comprove isso. Histórias que mostram que ninguém achou importante a presença da mulher ou mesmo que o seu trabalho não fosse fundamental. Oportunidades negadas por não terem experiência (porque não conseguem ter experiência sem a oportunidade), acúmulo de funções, salários diferentes dos homens, etc.

Penso que o mais revelador dentro destas histórias foi ver que a maior parte dessas mulheres nem tinha parado para olhar para a sua própria trajetória. A falta de registo (que é um apagamento) ou apenas o registo a partir do olhar do homem. Foi aí que entendi que a exposição precisava mudar de nome e mudar o olhar para mulheres que o cinema e o audiovisual olham de lado ou de maneira sexualizada.

João R. Pais Mas foi fácil o processo de contacto com essas mulheres? Como foi essa escolha? São mais de 50!

Tathiani Sacilotto – Não tinha como não iniciar o processo sem lembrar da história do início da Mutim (Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento), Por isso, comecei entrando em contacto com a Tota Alves e, em seguida, com as mulheres que fazem parte dessa associação. Convidei também mulheres que eu conhecia, de que ouvia falar, e que me mostravam seus trabalhos — imigrantes, estudantes, conhecidas (para algumas pessoas desconhecidas) — ,mas que, no meu ponto de vista, são mulheres extremamente importantes por conseguirem trabalhar no cinema.

Fiquei muito feliz em receber as mensagens a dizerem que queriam entrar na exposição. Foi mais fácil quando pedi para enviarem músicas.

 

João R. Pais – Achas que foi mais fácil partilhar músicas porque, enfim, é mais simples partilhar o trabalho de outras pessoas? Mais uma vez, ser-se a sombra do que se partilha?

Tathiani Sacilotto – Sem dúvida, acho que foi mais fácil, pois a música não nos coloca em foco, no centro, é uma escolha que acompanha a nossa trajetória e as nossas memórias. Acredito que fomos meio educadas para isso: acompanhar, sustentar, apoiar, fazer o trabalho invisível que possibilita o brilho do outro. Partilhar uma música é mais seguro.

Considero super simbólico isso da música ser mais fácil do que as fotos. Entregamos aquilo que não mexe com o nosso lugar de incómodo. A imagem já exige uma outra postura de afirmação, presença e ocupação do espaço. E isto é constantemente retirado das mulheres.

João R. Pais E quiseram todas aderir à ideia? 

Tathiani Sacilotto – É curioso, pois algumas não quiseram participar, mas acredito que foi por se sentirem em um lugar de não pertencimento, como se a celebração do trabalho delas não fosse merecida! Isso tem muito a ver com o reflexo do nosso papel no cinema e no audiovisual. Entramos meio que em modo automático: trabalho, casa, família… e depois nem lembramos o quanto somos importantes nesse meio. 

Uma amiga minha me contou, surpreendua, que fez dez filmes em 12 anos e ficou admirada. Mas por que nos surpreendemos? Trabalhamos «pra caramba», parecemos um polvo de tantas coisas que precisamos fazer e ao mesmo tempo e ainda assim nos surpreendemos? É trabalho, família, «tem que ser magra», «estou muito velha», «tem que depilar», «esta roupa tá boa para o casting»? Aí fui contar quantos filmes eu tinha feito… e também fiquei surpresa.

Ando meio cansada de ver (principalmente nas premiações), como muitas mulheres ainda tendem a colocar o reconhecimento do próprio trabalho em segundo plano. Agradecer é importante e educado, faz parte da generosidade e respeito no nosso meio. Mas precisamos afirmar com orgulho: «eu fiz este trabalho, me preparei, e o resultado é bom». 

Não é favor de ninguém. A gente tem que dizer com confiança: sim, fiz tantos filmes nos últimos anos, consigo fazer muito mais e sou realmente muito boa no que faço. Obrigada a essa mulher incrível que eu sou: estudei, me esforcei, mandei 50 currículos, trabalhei em 50 produções, fiz mil castings… obrigada a mim! 

 

João R. Pais É interessante isso que partilhas. Por exemplo, na curadoria cinematográfica, enum casting também, existe muito esse conceito: o de escolha. Consideras que talvez todo esse processo que contas fosse mais simples (permite-me) se houvesse outro tipo de decisores? Ou seja, se houvesse mais decisoras? Mais mulheres a escolher? Mais mulheres a decidir?  

Tathiani Sacilotto – Com certeza. Grande parte das decisões de financiamento, júris, produtores, ainda está hojena mão de homens. E claro que isso tem consequências diretas. Eles escolhem a partir do mundo que conhecem.

Quanto mais mulheres ocupam esses lugares, mais o olhar muda, a sensibilidade muda e a maneira como são feitas as coisas mudam. Acredito que as coisas só começam realmente a mudar quando quem decide também vive na pele da outra mulher no ambiente trabalho, maternidade, família, apagamento, acúmulo de funções. Quem sente isso, decide diferente.

 

João R. Pais  Gostei muito do conceito de haver uma curadoria dentro de outra curadoria. Esta é uma exposição em que há também música escolhida pelas mulheres. Ficaste surpresa com o tipo de música escolhido?

Tathiani Sacilotto – Fiquei muito surpresa, sim! No começo, achei que ninguém fosse aderir, mas muitas mulheres escolheram as mesmas músicas que eu gosto e que eu até queria colocar na minha lista. Acho impressionante esta sintonia entre as mulheres. Para mim, é quase algo místico ou uma espécie de irmandade.

 

João R. Pais –  Talvez a música seja mesmo esse espaço comum entre todos. Mas depois de tudo o que me contaste, haverá espaço para dançar nesta exposição? Pergunto no sentido literal e metafórico, como é óbvio.

Tathiani Sacilotto – Podemos dançar onde quisermos. Literal e metaforicamente. Eu acho que dançar é afirmar o meu corpo, a minha presença e alegria. Acredito que as músicas chamam para  lembranças, percursos e para o movimento. Posso dar o exemplo de uma das músicas que escolhi, que fala sobre um guardião dos caminhos, responsável pela comunicação e pelo movimento. Ele abre ou fecha caminhos que devemos ou não seguir e está associado à transformação, fertilidade (que também é a fertilidade do trabalho). Tem tudo a ver com o meu percurso de mulher imigrante, mãe e trabalhadora no cinema.

Dançar nesta exposição é um convite para que cada mulher possa seguir em movimento e dançar no centro.

 

João R. Pais –   Vendo todas as fotografias que vão estar expostas, agora não como curadora, o que achas que se vê do cinema em Portugal? Quão feminino é esse cinema?

Tathiani Sacilotto – Olho as mulheres, mas ainda vejo muitos homens. 

 

João R. Pais – Obrigado, Tathiani.


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