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A programação da 31.ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português, por João R. Pais

João Bénard dir-nos-ia que a sala escura é um lugar de fidelidade, mas nós acrescentamos que, em Coimbra e a partir de Coimbra, essa fidelidade alarga-se a todo um país, no nosso gesto habitual de levar ao público o que de mais vivo, diverso e inquieto o nosso cinema colhe a cada ano. Nesta 31.ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português, a decorrer entre os dias 15 e 22 de novembro, Coimbra, Benfica, Penacova e Mealhada, podem assistir a mais de 110 filmes em 63 sessões, que dão corpo à vitalidade do nosso cinema e o colocam em diálogo constante com o que é feito à escala internacional.

Continuamos a organizar e a programar um festival longe do eco fácil das capitais e das suas luzes, mas a comunhão em sala é igual, o sonho do cinema é igual, a intimidade de uma sala escura é a mesma. Afirmamos — e continuaremos a afirmar enquanto assim o for —, que é difícil fazê-lo; que é como acender uma candeia contra o vento, mas arriscamos. E se o fazemos é também graças a todas e todos que anualmente criam cinema, que tentam executar uma ideia e manifestá-la em tela, com todas as dificuldades que tal representa num país como o nosso. 

Curiosamente, e apesar de tudo isto, é esse mesmo país, e toda a sua bagagem, que vemos na maioria das vezes retratado no nosso cinema. É um país que momentaneamente se microlocaliza em sala, para assim ganhar grande dimensão na mente do espectador. E é aí que uma parte da magia do cinema acontece, pois mesmo na solidão partilhada da sala do cinema, aprendemos a reconhecer-nos uns aos outros, os que ficam, os que partem, os que regressam, o litoral e o interior, o trabalho e a inércia do existir, a casa e o exílio, o riso e a faca. Assim, é uma edição cuja linha curatorial deambula entre a memória e a pertença, o corpo e o território (o corpo como território!), o feminino e a fronteira. E mesmo que nos proporcionem outros olhares sobre as artes ou até novas visões ensaísticas (por aqueles que agora começam a encetar o seu caminho na criação cinematográfica), o cinema desta edição continua a provocar-nos as mesmas questões antigas: de onde vimos, para onde vamos, que histórias contamos quando o mundo nos pede pressa. E não é isso lindíssimo?

Importa salientar que programar não é “mostrar tudo”: é escolher com critério, compor um caderno de notas que respire, que compreenda uma pauta e assim os silêncios necessários. Curadoria cinematográfica é linguagem — e é assumidamente parcial, como toda a arte, mas uma parcialidade que ambiciona ser representativa, não de um bairro ou de um código postal, antes de um país inteiro, da sua presença no mundo, e do seu mapa emocional. Programar para uma cidade não é fechar-se nela: é antes respeitar-lhe os autores e, ao mesmo tempo, abrir as portas para que o público encontre todos os géneros e temperamentos do cinema português de hoje — ficção, documentário, animação, ensaio, a experiência com os criadores e a estreia. Não programamos “para” Coimbra — programamos desde Coimbra, com respeito pelos seus autores e com a convicção de que o público merece acesso a todas as formas do nosso cinema deste ano.

Se esta edição é uma cartografia do país, e também da sua presença pelo mundo, por via das imagens, convidamos todos os espectadores a conhecerem os seus vários meridianos, deixando-se por eles serem absorvidos entre 15 a 22 de Novembro.

 


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