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«Pai Nosso – Os últimos dias de Salazar», de José Filipe Costa, por Vasco Andrade

Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 19 de novembro, domingo, às 14h45, no Teatro Académico de Gil Vicente, com a presença do realizador e da atriz Cleia Almeida.

«Há uns dias ouvi qualquer coisa sobre três Salazares. Não deixa de ser irónico que este filme me encontre agora, numa época em que não se fala de apenas um, mas três. Devo dizer que, apesar de novo demais para tantas certezas, não me surpreendi quando este filme me assegurou que um Salazar já foi suficiente. Talvez mais do que suficiente.

 

Estamos perante o ditador nos seus últimos dias: velho, perdido, agarrado a uma ideia de país que já não existia. O filme mergulha no Palácio de São Bento como se fosse um teatro de marionetas. Salazar vive num delírio cuidadosamente encenado por Maria de Jesus, sua governanta, que lhe serve chá e mentiras com a mesma devoção. Ele já não manda em nada, mas todos fingem que sim. Portugal inteiro está ali, resumido num salão com cortinas pesadas e verdades abafadas.

A narrativa é lenta, claustrofóbica. A câmara parece ter vergonha de se aproximar, como se até o realizador temesse perturbar o ditador no seu declínio. E nós, espectadores, somos cúmplices silenciosos, a espreitar o fim de um homem que acreditava ser eterno.

Mesmo nos seus últimos dias, já preso ao corpo e à solidão, Salazar nunca largou as amarras das suas próprias certezas. Continuou a acreditar que o silêncio era ordem, que a obediência era virtude, que o medo era um bom conselheiro. Mesmo quando o mundo à volta se desmoronava, ele permaneceu fiel à rigidez que o definiu. O poder tinha-lhe escapado das mãos, mas não da mente. É a triste realidade de ver um homem morrer sem nunca duvidar de si.É curioso como o país parece ter sempre uma certa nostalgia da farda e do silêncio imposto. Uma tentação de achar que o passado é um lugar seguro, só porque o som das botas era mais previsível que o barulho da democracia. Pai Nosso – Os últimos dias de Salazar é um lembrete de que a história não anda em linha reta. Às vezes faz curvas, e outras vezes dá voltas completas. E nós, que achamos que já percebemos tudo, podemos acabar a repetir erros com nomes novos.»

Vasco Andrade

https://www.youtube.com/watch?v=mp0LoJ2bao0

Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema.

Apostámos também em envolver espectadores mais jovens. Nesse espírito, lançámos o convite a um jovem com menos de 18 anos, para que o festival pudesse incorporar e partilhar esse olhar fresco, curioso e generoso sobre o que o cinema português está a criar. Assim surgiu o Vasco Andrade, que nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo.

Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.

 


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