Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 18 de novembro, terça-feira, às 18h45, no Teatro Académico de Gil Vicente.
O título deste filme engana. Soa a conto das mil e uma noites, a uma fantasia leve. Mas o voo que promete é tudo menos mágico. É o voo impossível de um adolescente preso num mundo de silêncios. Inspirado nas histórias reais do caso Casa Pia, este filme, aproveitando a sua curta duração, coloca-nos numa posição de tensão constante. E ainda bem. O cinema português precisa de mais filmes que incomodem, que agarrem nas feridas que o país insiste em esconder.
O filme Tapete Voador não se cola a discursos, não precisa. Basta um olhar, um silêncio demasiado longo. É nesses momentos que o peso cai sobre nós (espectadores confortavelmente sentados), enquanto percebemos que existem realidades que não deviam precisar de metáforas.
Um jovem que procura escapar ao ambiente de violência e abuso que o rodeia, mas que vê constantemente os seus sonhos travados pela brutalidade da vida. O filme acompanha esse percurso íntimo, mostrando como Ricardo se debate entre a inocência perdida e a necessidade de resistir. No entanto, há também uma certa ternura escondida, quase clandestina, na forma como Amorim retrata a relação entre os dois irmãos – um laço frágil, cheio de medo e cumplicidade, que se torna o único resto de calor num ambiente que tudo quer gelar.
O cinema, por norma, tem uma certa mania para transformar a dor em estética. Este filme não apresenta o glamour da tragédia, não apresenta uma redenção bonita. Daí este filme ser necessário. Traz-nos de volta à realidade, a realidade de instituições com o dever de proteger, mas que, em vez disso, destroem. Ricardo e a irmã não são apenas vítimas numa história baseada no real. São o símbolo de todos os que crescem entre muros de vergonha e silêncio.
Dói admitir que o escândalo foi apenas varrido para debaixo de um tapete… voador, claro. Mas talvez um dia, quando encararmos tudo isto sem desviar o olhar, o tapete voador já esteja mesmo a voar. Não por magia, mas porque finalmente teremos aprendido a não deixar ninguém cair. Este filme é apenas um alerta para isso mesmo.
Vasco Andrade nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo. Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.
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