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«Porque Hoje é Sábado», de Alice Guimarães, por Vasco Andrade

Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 17 de novembro, segunda-feira, às  21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente..

O pó assenta em toda a parte. Mas há um pó mais traiçoeiro, aquele que se instala nas expectativas. É um pó antigo, herdado, tão fino que mal se vê, mas tão presente que ainda hoje marca quem limpa, quem organiza, quem segura o mundo sem que o mundo repare. É difícil aceitar que, no tempo em que vivemos, ainda haja casas onde esse pó decide sempre pousar primeiro sobre os ombros das mulheres.

A protagonista avança pela casa à procura de uma fresta de luz num corredor sempre a escurecer. Qualquer tentativa de se encontrar — um caderno aberto, um passo de dança solto, um sopro de silêncio — nasce já frágil, com o fim marcado. Ela tenta ouvir a sua voz, mas o mundo nem a deixa sussurrar. 

Portas batem, vozes chamam, tarefas levantam-se como sombras que lhe pisam os calcanhares. E assim, no instante em que a criatividade começa a acender uma luz, alguma força bruta do quotidiano sopra e apaga a chama ainda tímida. O que poderia ser liberdade evapora-se antes de ganhar forma, deixando-a suspensa num eterno quase. Quase paz, quase encontro, quase voo.

A animação, com uma leveza ingénua, torna-se veículo para chegar ao que é real sem se deixar esmagar pelo seu peso. Cada movimento, cada traço, fala de dores e contradições que a vida insiste em disfarçar. É absurdo que se continue a normalizar a atribuição natural de certas tarefas às mulheres. Ao menos, enquanto isso acontece, que sejam feitos filmes destes: testemunhos dessa realidade, que justificam cada olhar. 

Por ironia do destino, escrevo este texto num sábado, e só agora me apercebo da sorte que tenho em poder fazê-lo.

 

Vasco Andrade nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo. Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.


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