Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 18 de novembro, terça-feira, às 14h45, na Casa do Cinema de Coimbra.
Não é muito comum começar um texto com uma frase tão definitiva, eu sei. Mas neste caso, não há como contornar: Manas, de Marianna Brennand Fortes, é, para mim, o eco mais profundo que o cinema entregou no ano passado. Dito isto logo à partida, fica claro que não há neutralidade possível. Este filme não pede distância crítica, pede entrega.
Marcielle, a menina de treze anos que o mundo já trata como mulher, é a alma ferida que suporta dores que não lhe pertencem. Vive numa casa de murmúrios e olhares desviados, filha de uma mãe que se cala e de um pai que existe demais. A câmara não invade, apenas observa. O abuso não se mostra de frente. Talvez por isso o sentimos tanto. Há uma violência que não precisa de sangue nem de gritos para nos arrepiar.
Manas não é um filme sobre família. É sobre um país. Um país onde o corpo feminino ainda é campo de batalha, onde o maltrato se esconde entre paredes finas, onde a pobreza e o machismo se alimentam um do outro. A realizadora não acusa, não explica. Mostra. E mostrar, por vezes, é o ato mais político de todos.
O que este filme faz, com uma precisão quase poética, é filmar o silêncio da mulher, um silêncio forjado pela sombra da supremacia masculina, que domina e molda cada espaço da família. A mãe, imóvel, guarda no rosto o mapa de todas as desistências. A filha tenta escapar pelo sonho, pela água, pela lembrança de uma irmã que partiu. Mas o rio, mesmo largo, não leva tudo. Há coisas que ficam.
O filme não oferece consolo, oferece consciência. E a consciência, quando chega, raramente é confortável. Saí da sala com o peito apertado. É impossível não reconhecer, naquele silêncio pesado, a aflição de tantas vozes caladas.
Manas é um grito mudo, um terramoto silencioso que racha o chão invisível das certezas e espalha fragmentos de verdade por cada sombra.

Vasco Andrade nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo.
Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.
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