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Estreia mundial de «Joie de vivre», de Hugo Magro

Uma proposta entre a poesia, a memória e o renascimento. O filme é apresentado em estreia mundial  no dia 18 de novembro, terça-feira,  às 21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente. No final da exibição, será possível conversar com o realizador e com os atores Ana Moreira e Miguel Guilherme.

Partindo do livro «Um passo sobre a terra», de Vasco Gato, a curta-metragem nasce da tentativa de habitar a memória e de reconstruir aquilo que já não se vê: fragmentos de infância, ecos familiares, gestos interrompidos e imagens que a consciência tenta recompor.

À semelhança do livro que o inspira, o filme parte de uma ferida — uma memória danificada — para procurar um espaço de renascimento. O realizador resume o espírito do título: «Joie de vivre» não é um otimismo imediato, mas «uma forma de recuperação, uma última hipótese de reencontro com aquilo que ainda pode surgir». Esta ambivalência aproxima-se de uma frase de Manuel Gusmão, citada por Vasco Gato numa entrevista sobre o livro: «Contra todas as provas em contrário há alegria.» É nesse intervalo, entre o dano e a possibilidade, que o filme se instala.

 

A poesia de Vasco Gato atravessa a narrativa como voz exterior e interior, numa cadência que estrutura o ritmo emocional de Ian, o protagonista. A presença do escritor no filme — através de leituras do próprio — funciona como ponte entre palavra e imagem, entre memória e representação.

Mas «Joie de vivre» é também um encontro de artes: o espaço teatral como zona de confronto e representação; a «maneira como a presença de Ana Moreira molda cenas-chave — pela forma como ocupa o espaço, intervém nos gestos familiares e dá corpo ao lado mais performativo da narrativa»; a densidade vocal de Miguel Guilherme, com «uma força, uma brutalidade emocional no encontro entre aquelas figuras»; a serenidade expressiva do jovem Joaquim Lopo Campeão e a presença musical — que culmina num Presto de Haydn — fazem do filme um cruzamento vivo de linguagens. «O cinema acolhe tudo», diz o realizador, que vê nesta obra a oportunidade de reunir referências e inquietações que sempre atravessaram o seu trabalho.

A estética fragmentada, entre sonho, imaginação e memória, reforça essa dimensão sensorial. A narrativa constrói-se por retalhos, como um documento danificado cuja leitura exige aproximação, dúvida e escuta. «Cada ato relembrado transporta em si a possibilidade de ser visto de outra forma», lê-se na nota de intenções do filme.

 

Hugo Magro nasceu em 1975, em Lisboa. Cineasta, videógrafo, músico e fotógrafo. Estudou Realização e Fotografia, em Lisboa. Desenvolve e colabora em projetos nas áreas de cinema, teatro, literatura e música. Na área do cinema, os seus trabalhos têm sido exibidos e apresentados em diversos festivais nacionais (IndieLisboa, Doclisboa) e internacionais.

O realizador mantém uma relação antiga com o Festival Caminhos, onde apresentou alguns dos seus primeiros trabalhos na Seleção Ensaios. Estrear «Joie de vivre» em Coimbra é, por isso, regressar a um lugar de convergência: «O Caminhos sempre me acompanhou desde o início. Há algo de especial em estrear aqui, num festival que reúne tantas linguagens artísticas e que se tornou um ponto de encontro para quem faz cinema em Portugal.»


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