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Crónica do Espectador Fantasma (4)

Fenómeno comum a todos os festivais de cinema é a existência de certas entradas fílmicas que acabam por gerar uma maior expectativa no público, destacando-se por entre os variados trabalhos que figuram nos diferentes catálogos.

Os Caminhos do Cinema Português não são excepção, dado que ano após ano, há sempre um prato mais apetecível no cardápio do Festival. Este ano, as suspeitas recaíam sobre “Listen”, filme sobre uma família portuguesa emigrada em Londres que vê a guarda dos filhos a ser ameaçada por suspeitas da parte dos serviços sociais. Este novo trabalho de Ana Rocha, cuja abordagem é fortemente enraizada nas crónicas características da filmografia de Ken Loach, tem conquistado a crítica nacional, bem como o circuito internacional de festivais, tendo já sido distinguido em Zagreb, Egipto e Veneza.

A longa-metragem também ganhou um certo favoritismo por entre os peregrinos do Caminhos deste ano devido à notícia de que será o próximo candidato nacional aos Óscares. Tal apoio concretizou-se em frutos de louvor democrático, na medida em que o filme da realizadora lisboeta acabou por levar o Prémio CHAMA Amarela.

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No entanto, e embora “Listen” tenha sido igualmente destacado pelo júri do Festival em categorias de índole Técnico-Artística (premiando não só vários elementos do elenco como Lúcia Moniz e Ruben Garcia, mas também a própria realizadora), a escolha deste júri para Melhor Filme recaiu sobre “O Fim do Mundo” de Basil da Cunha. Apesar da acção deste conto se passar mais próximo de casa (nomeadamente, nos arredores de Lisboa e não de Londres), de um ponto de vista topical poderemos apontar entre estes dois exemplos uma ligação genealógica, como primos afastados. Na verdade, o filme do realizador luso-suíço revela instintos de cinema verité e de neo-realismo (dada as fortes semelhanças sinópticas com “Os Inúteis” de Fellini), reflectidos pelo prisma das ficções em espaço real latentes de séries como “A Escuta” ou “Cidade dos Homens”. Tratam-se pois de duas lições concretas de um cinema doutrinal mas indoutrinado que procura incidir a ribalta não nas passadeiras ou ruas já por si extremamente iluminadas, mas nos cantos mais obscuros e escuros da nossa sociedade.

Reflectindo essa tendência, também o vencedor do prémio de Melhor Ficção foi para “Patrick”, a ousada estreia do actor Gonçalo Waddington na cadeira de realizador que também recebeu a distinção de Melhor Actor para Hugo Fernandes e Melhor Direcção Artística para Nádia Henriques. Já no que diz respeito à vertente documental, “Nheengatu” de José Barahona foi apontado como Melhor Documentário, mas “Amor Fati” de Cláudia Varejão acabou por se distinguir com o Prémio de Imprensa CISION. Exemplos documentais de valor que, juntamente com os trabalhos de ficção galardoados, demonstram olhares únicos e próprios sobre tópicos eclécticos mas memoráveis. Por sua vez, o campo das curtas-metragens demonstrou uma variedade de vencedores, que vão desde “Bustarenga” de Ana Maria Gomes até “Corte” de Afonso e Bernardo Rapazote, comprovando-se assim tal eclecticismo criativo dos trilhos mínimos que se renovam anualmente nos Caminhos. Pequenos exercícios que se revelam autênticos rasgos de originalidade no meio das composições de hora e meia e cuja visualização, fora de eventos como o Caminhos, é de difícil acesso.

Como tal, precisamente para dar uma oportunidade ao público de (re)encontrar tais obras galardoadas, o Caminhos este ano retoma o passo, mas com uma maior distinção e distância, nas suas reposições. De facto, é comum ao Festival organizar estas segundas oportunidades para experienciar as metragens mais aclamadas do seu programa. Contudo, dadas as circunstâncias atípicas do presente ano pandémico, a organização prolonga pois tal hipótese de rever ou até mesmo reaver o que se falhou na primeira volta, dadas todas as mudanças súbitas de horário que foram ditadas por legislações latentes do presente estado de emergência. Este ciclo de reposições já começou no passado fim-de-semana (em paralelo com as exibições finais das secções competitivas se desenvolviam no TAGV), mas irá continuar nos dias 5, 9, 10, 12, 16, 17 e 19 do vindouro mês de Dezembro. Todas as sessões têm o horário marcado de 17:30 ou 20.30 e realizar-se-ão na ressurgida Sala 2 das Galerias Avenida. Muitos dos filmes estão para ser anunciados (para já, o único que se sabe é “Um Animal Amarelo“, de Filipe Bragança), mas é uma questão de ir seguindo a página de Facebook do Festival ou no site oficial do Festival.

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Por último, há que se realçar igualmente as mostras paralelas que terão lugar na mesma Sala 2 das Galerias Avenida, em actividade neste último mês do ano. À semelhança dos exercícios de exibição cinematográfica organizados pelo Centro de Estudos Cinematográficos ao longo do ano lectivo (apesar do grau de dificuldade cada vez mais íngreme, cortesia da pandemia e resultantes estados de emergência), estas mostras paralelas evidenciam as bifurcações dialécticas que cativam muitos dos peregrinos que percorrem os caminhos. Trata-se de exemplos cinemáticos de autêntico culto, dada a sua raridade em figurar nos catálogos televisivos ou de streaming. Além de permitirem um vislumbre pelo cinema que se faz por esse mundo fora e que não é vítima de intromissão dos estúdios, a mostra Filmes do Mundo divide-se numa meia-dúzia de temáticas distintas. Além da sub-categoria sui generis de Thriller & Sobrenatural, temos: Redes Sociais, Feminismo, Transtorno Mental, LGTBQ e Relações. Ou seja, uma mão-cheia de tópicos sociais actualmente relevantes e certamente capazes de despertar o olhar mais crítico para o mundo que nos rodeia, mesmo que esteja fora do nosso quotidiano alcance visual.

Pedro Nora