Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Alexandra Capelo, estudante da Licenciatura em Estudos Artísticos/FLUC, escreveu sobre um dos filmes da Seleção Ensaios, que vai ser exibido no dia 17 de novembro, segunda-feira, às 14h45, na Casa do Cinema de Coimbra.
Se tivesse de definir esta curta-metragem numa só palavra seria«visceral».
Somos apresentados a Inês, uma mulher de 25 anos que, por algum motivo desconhecido, nunca menstruou e, por isso, anda de ginecologista em ginecologista para tentar descobrir. É-lhe dito numa dessas consultas que estariam dentro do seu útero centenas de pequenos seres com formato de aranhas.
O terror psicológico fica explícito desde o início, sendo essa«anomalia» o condutor de toda esta narrativa. O medo de Inês transborda da tela para o espectador já que sabemos tanto quanto ela sobre o que lhe está a acontecer.
Durante cerca de 22 minutos, somos conduzidos numa viagem pelo quotidiano da protagonista, os seus pesadelos e até pelas suas vísceras (literalmente).
Para além do terror psicológico, também se pode dizer que esta curta possui algum teor de body horror, mesmo sem ser muito explícito, todo o seu horror está ligado ao corpo, como lidar com a sua condição, o quotidiano de se viver mesmo quando algo não está bem, o medo e a curiosidade do desconhecido.
Atrevo-me a dizer que a obra funciona perfeitamente como uma crítica ao Sistema de Saúde, num mundo onde as doenças do corpo feminino são sempre mais negligenciadas e postas em segundo plano. «O Tempo das Cerejas» explora essa aflição de não ser ajudado e a leviandade com que estas doenças são descartadas como algo passageiro e sem muita importância.
A maternidade também é um tema central, já que a mãe de Inês é a única que a ajuda e acompanha neste processo. Afinal está tudo interligado ao ser mãe, à possibilidade de ser mãe, ao medo e experiência de cuidar, criar e agir em prol de outro ser.
Inês Matos e Patrícia Matos brilham nos seus papéis, conseguindo transmitir de forma quase perfeita a angústia passada no decorrer da ação.
Visualmente, o filme atrai pela sua apresentação constante da natureza, o paradoxo da natureza na sua fase mais viva e a natureza morta, o surrealismo do sonho e o quotidiano familiar. Saímos da curta a pensar que talvez ainda não era o tempo das cerejas, mas sim tempo de dar importância a doenças que só quando «maduras» se vê se há bicho ou não.
Alexandra Capelo, nasceu e foi criada em Coimbra. Atualmente é estudante de Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Desde cedo desenvolveu uma forte afinidade com o cinema e com tudo o que o rodeia — a capacidade de contar histórias sempre a fascinou. Entrou no curso com o desejo de aprofundar esse interesse, compreender melhor o universo cinematográfico e aproximar-se de um mundo que sempre lhe despertou enorme curiosidade.