Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Ana Catalão, estudante da Licenciatura em Estudos Artísticos/FLUC, escreveu sobre um dos filmes da Seleção Ensaios, que vai ser exibido no dia 17 de novembro, segunda-feira, às 14h45, na Casa do Cinema de Coimbra.
Esta curta-metragem com apenas 20 minutos consegue ser simultaneamente um documentário e um registo biográfico sobre a resistência feminina. A narrativa intimista desenrola-se em torno das rotinas de três mulheres rurais — Adélia, a taxista; Paula, a mecânica, e Catarina, a camionista.
O filme propõe uma forte reflexão sobre a feminilidade que se afirma em profissões tradicionalmente associadas ao homem, desmistificando o trabalho e o género.
O documentário acompanha as mulheres nas suas rotinas mundanas com entrevistas informais, onde o espectador é desafiado a refletir as dificuldades que estas mulheres têm vindo a ultrapassar na sombra do patriarcado. São estes testemunhos que levam a cabo e credibilizam a luta constante das mulheres. Paula, a mecânica, partilha como ela foi enfrentada com perguntas indiscretas, ironicamente, por parte de outras mulheres. «Tem marido?»- a indignação na pergunta sugere uma necessidade de justificar a sua presença na profissão. A questão insinua que a coragem de fazer um trabalho de homem, significa que Paula negligenciou o seu papel feminino tradicional. O comentário mostra mais uma vez a rapidez que a sociedade tem em julgar as mulheres que fazem escolhas consideradas transgressoras, ao invés de serem encaradas com a normalidade que um homem é mecânico ou camionista.
Quase no fim do documentário há uma quebra inesperada da quarta parede, onde a diretora de som, Ana Cardoso, é também entrevistada sobre as suas dificuldades na área profissional sendo mulher. Esta escolha narrativa acaba por enfatizar o problema e como este reside constantemente em certas profissões, mais do que as pessoas podem imaginar.
Raquel de Lima consegue expor um grande problema social e patriarcal de forma poética e íntima à medida que acompanhamos a vida destas mulheres. A reflexão profunda reside na consciência de que a desigualdade de género ainda existe e é um direito pelo qual temos o dever de reivindicar dia após dia. Estas mulheres são a prova viva da luta constante pela libertação da mulher dos papéis de género.
Ana Catalão, 20 anos, é natural da Vila das Artes — Vila Nova de Cerveira. Atualmente estuda na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e nutre uma forte paixão pelo cinema. Foi essa paixão que a levou a escolher a Licenciatura em Estudos Artísticos, movida pela ambição de enveredar pelo universo cinematográfico, especialmente pela área da produção, no palco da sétima arte que tanto admira.
Discover more from Caminhos do Cinema Português
Subscribe to get the latest posts sent to your email.