Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Ana Catalão, estudante da Licenciatura em Estudos Artísticos/FLUC, escreveu sobre um dos filmes da Seleção Ensaios, que vai ser exibido no dia 19 de novembro, quarta-feira, às 14h45, na Casa do Cinema de Coimbra.
Toxicodependência, doença mental e famílias disfuncionais. Esta curta-metragem biográfica de Ricardo Salgado capta conversas mundanas, pouco depois da tentativa de suicídio da sua tia. Com o contexto dado na abertura do filme conseguimos perceber melhor a profundidade dos diálogos: a fugacidade da vida e o luto são temas centrais do filme que, infelizmente, tia Paulinha não chegou a poder testemunhar. Eu diria que se torna quase uma ode à mulher que o realizador sempre viu como figura materna, como o mesmo menciona no relatório final do seu projeto de mestrado.
O simples fato da tentativa da tia tirar a própria vida, ter sido o motor para Ricardo começar a gravar secretamente as conversas com ela, mostra a fragilidade da vida e reflete a urgência de imortalizar alguém querido, antes que seja tarde demais. Os momentos entre ambos fluem entre o sério e o cómico, mas é aí mesmo que se sente a afinidade entre um e o outro. Durante todo o filme apenas vemos paisagens por onde tia e sobrinhos passam nas suas viagens de carro, em conversas de café em esplanadas e na praia. Apenas ouvimos o som do rádio, das músicas e das vozes de Paulinha e Ricardo – a única imagem que temos deles são duas ou três fotografias antigas, que funcionam como uma espécie de “found footage”, tornando a abordagem da memória ainda mais interessante. Dada a dinâmica familiar complexa, a tia parece levar estes entraves de espírito leve, e no desenrolar dos diálogos, acabamos por criar uma certa afeição por ela. Entre problemas amorosos, idas à psiquiatria e tragédias familiares, Paulinha canta “Sea, Sex and Sun” de Serge Gainsbourg e “We Are Family” das Sister Sledge com alegria, corpo e alma. Surpreendeu-me em particular a capacidade de otimismo da tia, e de autoanálise ao mesmo tempo. Afirma a certo ponto que é “ uma grande manipuladora” face à dependência das drogas e à depressão, e estas reflexões são uma chapada de luva branca para o espetador quando é encarado com esta realidade de toxicodependência. Somos assim totalmente emergidos na vida pessoal de ambos, com várias camadas que vamos desmembrando ao longo da curta.
“Se a tua força não entrar e a razão te sucumbir, só espero não teres de acabar no mesmo chão onde caí”. Ouvimos este excerto de uma música a certo ponto do filme e acredito que resume perfeitamente a mensagem do filme – uma mensagem de esperança para quem enfrenta doenças mentais como depressão. As escolhas musicais, embora espontâneas, dão muita personalidade ao filme. “Don’t You (Forget About Me)” de Simple Minds, sugere a saudade imortal que Paulinha certamente deixou na vida de Ricardo. Ver este filme foi o meu “Memento Mori” que é um convite à reflexão da condição humana e da inevitabilidade da morte, temas complexos e intangíveis que vão além da nossa compreensão e Ricardo consegue pôr em palavras, com a voz que deixará eterna saudade.
Ana Catalão, 20 anos, é natural da Vila das Artes — Vila Nova de Cerveira. Atualmente estuda na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e nutre uma forte paixão pelo cinema. Foi essa paixão que a levou a escolher a Licenciatura em Estudos Artísticos, movida pela ambição de enveredar pelo universo cinematográfico, especialmente pela área da produção, no palco da sétima arte que tanto admira.
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