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«Saudade, Talvez», de José-Manuel Xavier, por Vasco Andrade

Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 19 de novembro, quarta-feira, às  21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente..

 

Saudade é uma palavra que já parece nascer cansada. Vive cheia de ecos, de ruídos passados. Mora num sítio muito específico, onde o tempo se dobra e o presente se mistura com o que já não existe. Saudade, Talvez ocupa esse espaço difícil de definir. Um espaço em que o que sentimos não tem nome certo, apenas uma espécie de voz interior que insiste em não se calar.

Felizmente, neste filme, não há uma tentativa de esclarecimento sobre o que é a saudade. Seria inútil. Em vez disso, somos convidados a andar por dentro dela. Não há pressa nem respostas prontas. O realizador parece saber que a vida raramente oferece conclusões limpas. Em apenas doze minutos, este filme consegue suspender o tempo. Não é uma narrativa linear, mas uma experiência sensorial: poesia que se move, imagens que se tornam versos.

Uma banheira, neste filme, revela-se mais do que um refúgio. É um espelho de água onde o protagonista mergulha para dentro de si. Cada vez que ali se deita o presente amolece, uma passagem para o antes abre. O som abafado, o calor, o peso do corpo a flutuar, tudo remete à sua infância, a um tempo em que o mundo ainda cabia naquela banheira que parece cada vez menor.

Bastaram os tais doze minutos para que esta curta me fizesse repensar o que julgava entender sobre o ato de recordar. O recordar não passa de um regresso sem viagem, uma forma de nos recolhermos no nosso próprio silêncio. Talvez recordar seja apenas a maneira mais delicada que temos de permanecer onde já não estamos.

Assistir a Saudade, Talvez é como abrir uma gaveta que há muito não se mexia. O ar de dentro vem pesado, cheira a passado, mas traz também uma ternura estranha. No fim, não saímos leves, mas saímos inteiros. Há um conforto em perceber que a saudade, afinal, é uma forma bonita de continuar a sentir o que já não volta.

 

 

Vasco Andrade nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo. Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.


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