Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Ana Catalão, estudante da Licenciatura em Estudos Artísticos/FLUC, escreveu sobre um dos filmes da Seleção Ensaios, que vai ser exibido no dia 21 de novembro, sexta-feira, às 14h30, na Casa do Cinema de Coimbra.
Naufrágia é o feminino de naufrágio. Significado de naufrágio: Destruição ou a perda de um navio. Os naufrágios têm diversas causas. Um navio pode ser destruído pelo fogo, pode afundar, ou pode colidir com outra embarcação. As causas de alguns naufrágios permanecem desconhecidas. Nesta curta-metragem de Carolina Vaz Rebelo, somos confrontados com o “naufrágio” da sanidade de Laura após herdar a quinta do avô. Este ato, que devia ser de sorte, é apenas o início de um pesadelo.
No início vemos o quotidiano rural de Laura na quinta do seu avô, percebemos desde já as condições precárias que a imigrante brasileira enfrenta na terra do falecido avô. Depois de um mergulho no rio ao anoitecer, Laura dá de caras com um caçador de espingarda na mão. Laura questiona “Está caçando?” ao que este responde: “Há coelhos por todo o lado”. O diálogo vai escalando até que o caçador diz que os coelhos “destroem a cultura” e “são muitos, o melhor é cortar o mal pela raíz”. Nesta cena, o caçador representa o controlo sobre o território, usando a metáfora dos coelhos para desumanizar uma minoria. Define-os como pragas que ameaçam a identidade e a cultura estabelecida. O caçador num tom cínico, justifica a necessidade de extermínio do que “está a mais”. O verdadeiro terror da curta reside neste diálogo e mostra como a violência não é física, mas sim verbal , o que torna a crítica social sobre a política anti-imigração, e o passado colonial, mais forte. Laura percebe que, no fundo, a herança que recebeu foi também uma ideia violenta legada dos seus antepassados. No fim do filme, ela foge dos caçadores após ser expulsa do terreno, reforçando a ideia do caçador e da presa.
A realizadora usa o terror para abordar temas sérios, conseguindo ligar a experiência individual ao problema coletivo através de uma linguagem simples e metafórica. Em última análise, “Naufragia” é um alerta para que a verdade seja confrontada e debatida na sociedade contemporânea.
Ana Catalão, 20 anos, é natural da Vila das Artes — Vila Nova de Cerveira. Atualmente estuda na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e nutre uma forte paixão pelo cinema. Foi essa paixão que a levou a escolher a Licenciatura em Estudos Artísticos, movida pela ambição de enveredar pelo universo cinematográfico, especialmente pela área da produção, no palco da sétima arte que tanto admira.
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