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»Mistério da Fé», de Gabriel Vaz e Ricardo Cardoso, por Alexandra Capelo

Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Alexandra Capelo, estudante da Licenciatura em Estudos Artísticos/FLUC,  escreveu sobre um dos filmes da Seleção Ensaios, que vai ser exibido no dia 19 de novembro, quarta-feira, às 14h45, na Casa do Cinema de Coimbra.

 

Antes de Rosália “acusar” Deus de ser um stalker, tivemos Nietzsche que o “acusava” de ser um homem morto, em que ficamos afinal?
“Mistério da Fé”, decorre dentro de um convento onde o puritanismo é um pecado capital, sendo essa a maior blasfémia de Maria Rosário.
No decorrer de cerca de 17 minutos, Gabriel Vaz e Ricardo Cardoso apresentam-nos uma sátira ao catolicismo no seu melhor, com muitas freiras influencers, alternas e indiscretas. Sendo Rosário a “ovelha negra” num meio onde a clausura monástica só existe no papel.
Nossa senhora apareceu à jovem freira, dando lhe a missão de encontrar duas garrafas de vinho, aqui a “ nova irmãzinha Lúcia” bem longe de Cova da Iria, passa pelo Cabo das Tormentas, até que, acusada de conspirar contra o convento foge e morre da forma mais Regina George possível.
Já no Céu, Rosário encontra finalmente o sítio da afterparty da vida, tendo a triste notícia de que Deus morreu vindo da boca de Friedrich Nietzsche.
Se isto tudo pareceu surreal, é porque é. “Mistério de Fé” mostrou-se uma agradável surpresa pelo seu teor absurdamente cómico.
Dito isto, não deixa de ter a sua crítica social, já que questiona o absurdo de viver, afinal “Deus está morto” e já não há ninguém que nos perdoe por aquilo que não sabemos fazer, a régua moral do catolicismo já não é suficiente para medir as “nossas” ações. As verdades absolutas são relativas, o “bem e o mal” são uma questão de opinião – ao longo da curta a conclusão talvez seja que “o inferno são os outros” (indo para uma linha de pensamento mais existencialista), já que hoje em dia o nosso maior medo não são as chamas do inferno, mas sim o julgamento da “freira” mais próxima.
Num universo onde uma pomba se torna um smartphone, será esse o nosso novo Deus?

 

 

 

Alexandra Capelo, nasceu e foi criada em Coimbra. Atualmente é estudante de Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Desde cedo desenvolveu uma forte afinidade com o cinema e com tudo o que o rodeia — a capacidade de contar histórias sempre a fascinou. Entrou no curso com o desejo de aprofundar esse interesse, compreender melhor o universo cinematográfico e aproximar-se de um mundo que sempre lhe despertou enorme curiosidade.


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