Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 19 de novembro, terça-feira, às 14h30, no Teatro Académico de Gi Vicente..
A Vida Luminosa é um filme que nos prende pela atmosfera. Lisboa, primavera. Nicolau é um jovem daqueles que andam por aí. A vaguear entre cafés, livrarias e ensaios que nunca chegam a palco. Existe algo de poético em vê-lo caminhar pela calçada portuguesa como quem procura sentido entre as pedras soltas. A capital que surge como cenário, revela-se um labirinto.
Há uma melancolia muito portuguesa presente neste filme. A tristeza suave de quem espera que algo mude, mas nada muda. A vida de Nicolau que está sempre prestes a começar, mas que nunca começa. Essa ausência de acontecimentos não é uma falha na narrativa. É o espelho de uma geração que vive na linha ténue entre o desejo e a ação, entre o sonho e o próximo passo.
Nisto tudo, surge Chloé. Francesa. Não fala português, mas também não precisa de grandes gestos. Um “je ne sais pa” transforma todas as dúvidas existenciais em poesia, como se Lisboa, ao ouvi-la, se tornasse ainda mais bela. Quando fala, o filme muda de tom. Tudo parece ganhar uma clareza melancólica. A língua francesa acaba por servir para dizer o que em português seria demasiado cru.
Nicolau encarna aquela sensação de estar à procura de um lugar no mundo sem saber bem por onde começar. O andar pela cidade, os sonhos adiados, o futuro incerto, a fragilidade das relações, são todas experiências comuns a quem vive a juventude entre expectativas e desilusões. O protagonista mostra que crescer também é sobre lidar com o vazio, com a dúvida e com o tempo que parece escapar.
Depois de ver A Vida Luminosa, só houve uma coisa a fazer: descer de Coimbra a Lisboa, ir até à Cinemateca, sentar-me na esplanada a fingir que leio qualquer coisa e esperar. Não por um filme. Esperar por um cruzar de olhares com alguém que ande tanto à deriva pela capital como Nicolau. O café soube melhor com essa possibilidade no ar.

Vasco Andrade nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo.
Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.
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