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«Tardes de Solidão», de Albert Serra, por David Falcão

Se atualmente o referente dita que as touradas são más e que os aficionados são doentes por carnificina, então o trabalho do realizador é dar a ver o outro lado da moeda, criar um segundo ângulo, sem o qual não começaríamos a vislumbrar a forma – é talvez um dos princípios do cinema aquele que diz que não devemos ser cruéis com aquilo que odiamos, mas apenas com aquilo que admiramos.

Desta forma, por vezes, ao ver este filme, temos a impressão de não estarmos perante uma luta entre o homem e o animal, mas antes perante uma luta contra a distância que os separa, que os impede de coexistirem e de se apreenderem mutuamente. Exemplos desta proximidade e distância são os momentos em que Andrés se roça no touro, usando o próprio corpo do touro para o iludir. É claramente uma batalha sem vencedores e talvez venha daí o título, Tardes de Solidão.

Na tourada inicial, uma destas cenas parece exprimir este dilema. É uma cena de duração suspensa que nos delicia com os movimentos circulares de Andrés sobre o touro, como se fosse uma bailarina (também aqui podemos observar algo interessante no que respeita a esta luta: a ideia de uma luta entre a raiva do macho, a sua irascibilidade, e a circularidade da fêmea, o seu hipnotismo), fazendo a corte de sangue ao touro, deslumbrando-o com a cortina vermelha, quase como se quisesse desorientá-lo o suficiente para poder aceder ao seu impenetrável mistério, e acaba quando o toureiro desembainha a sua espada e se lança para o touro. No momento crucial da morte do animal, o realizador corta para um close-up do dorso do animal a ser espetado. Este corte é perturbante. De certa forma espectaculariza toda a tourada, como se da televisão e das suas múltiplas câmaras se tratasse. Espetáculo que permite cobertura infinita por um lado e compreensão limitada por outro. Porque para o espectador, a única maneira de compreender esta morte, o desfecho desta batalha, seria através do rosto, talvez dos gestos do próprio Andrés, neste momento decisivo. O corte para o dorso do touro com a espada lá cravada salta por cima da experiência da morte, para a alusão a essa experiência – o símbolo da morte.

Apesar deste efeito criado pela montagem das imagens das várias câmaras que captam a tourada, é de apreciar a feminilidade deste toureiro, a maneira como move as ancas na tourada, o seu próprio disfarce abrilhantado, a maneira como puxa os collants até ao peito e depois os enfia no rabo, até mesmo o esgar de boca furada que usa para chamar o touro. Dando o passo do pavão em direção à morte, com os olhos a brilhar com intensa provocação, a personagem de Rey assume uma identidade e uma força gays: esse tal feminino que tenta unir-se ao touro no bailado ensanguentado. A doce infantilidade, e talvez também uma certa dose de falsa
inocência, presentes nas perguntas que Roca Rey repete constantemente, quer seja no carro ou nos momentos em que se retira da arena com a face ensanguentada, completam esta bela imagem do toureiro efeminado: “Desta vez tive sorte, não foi?”

 

«Tardes de Solidão», Albert Serra, 125’, ESP/FRA/PRT, 2024

 

 

 

 

 

 

David Falcão nasceu em 2001. Viveu e estudou em Coimbra até se mudar recentemente para Lisboa, onde se licenciou na Escola Superior de Teatro e Cinema, com especialização em som. Em 2024 realizou e co-realizou a curta-metragem «E Ainda Sonhámos com o Paraíso!», que teve estreia no DocLisboa’24.