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Tiago Afonso e a arte de realizar sem imaginação

Tiago Afonso deu início à Mastersession de quarta na Sala do Carvão, na Casa das Caldeiras  com o tema “O Meu Cinema”. O atual docente da Universidade Lusófona do Porto realiza sobretudo filmes de teor documental, como filmes de intervenção e reflexão política, mas também obras de cariz autobiográfico e experimental. O realizador, não só exibiu alguns trechos dos seus filmes, como também refletiu sobre os mesmos. Falou sobre as suas próprias obras e criou uma ponte entre o seu processo de criação e, aquilo que é feito no cinema português.

Citando “As Portas da Perceção” de Aldous Huxley, o cineasta falou sobre a abertura da perceção humana e sobre a sua considerada “deficiência”. Tiago Afonso, ao contrário do resto das pessoas, quando pensa em alguma coisa não consegue associar uma imagem no seu cérebro ou seja, não é capaz de visualizar mentalmente. Este antagonismo entre imaginação e criação levou com que, segundo o realizador, o seu processo de fazer cinema seja distinto de todos os outros: “tudo o que preparo é para destruir”.

Através de uma breve demonstração do documentário “Vestígios” (2004), o cineasta colocou as suas personagens numa “situação de reagir”, no sentido em que as reações obtidas foram espontâneas e não programadas. Tiago Afonso conviveu de perto com Acácio Pina Coelho, um artesão de estatuetas de gesso, durante três meses antes de filmar. “O cinema, para mim, não é filmar as pessoas, mas antes o invisível”, o que acabou por se refletir nesta obra, já que, por escolha pessoal, optou por excluir os dramas da vida pessoal de Acácio do filme.

Sensibilizou ainda o público para a vertente mais poética do cinema, onde nada é planeado nem tem segundas significações, apenas cinema no seu estado puro. Em contraposição, criticou o a estetização excessiva do cinema, que resulta numa análise dos desejos do público do ponto de vista do consumo, questionando-se: “até que ponto as imagens tomam conta das pessoas?”. Referiu ainda como a imaginação é “a forma mais fácil de controlar o ser humano”, dando exemplos do imaginário do medo e da insegurança.

Na segunda exibição, o realizador mostrou partes da curta-metragem “Música de Câmara” (2009), com imagens íntimas – tanto suas em bebé, como da sua mulher grávida – de simbologia pessoal e transmissível: o nascimento do primeiro filho. A segunda parte do filme é mais ficcional e foca-se no idílico da semente da vida, como podemos ver na cena da praia. Já a terceira parte é documental, engloba o conceito de comunidade e pinta um retrato das vindimas do Douro.

Em “Lefteria” (2009), Tiago Afonso viajou para a Grécia com o objetivo de perceber os contornos de uma revolta, iniciada após a morte de um jovem de 15 anos por um polícia, numa altura em que o país atravessava uma grave crise financeira. Aqui, vemos o filme como um exemplo de ativismo puro, onde o realizador é participativo, vai às manifestações, sente o caos, a repressão e a violência sem moderar ou manipular nenhum destes aspetos.

A longa-metragem em honra de Alípio de Freitas, “A Causa e a Sombra” (2015), representa o cinema militante de Tiago Afonso: quer seja o papel ativo de estar numa manifestação (como é o caso de “Lefteria”), quer seja através dos testemunhos de pessoas. Em 1970 Alípio de Freitas foi preso e, depois, sujeito a diversas formas de tortura, como simulação de afogamento e choques elétricos. Este é um filme político, mas ao mesmo tempo de intimidade, o que acaba por sintetizar o cinema de Tiago Afonso.

Por último, o realizador mostrou trechos da curta-metragem experimental “Saturado” (2009), que problematiza o facto de os portugueses acharem que a revolução estava feita, logo  “voltaram para casa” (palavras proferidas por Camilo Mortágua no filme). No espaço de debate com o público, discutiu-se a importância do cinema de autor e a diferenciação entre “cineasta-cidadão” e “cineasta-alien”. Para Tiago Afonso, o primeiro prima pela liberdade de expressar opinião, enquanto que no segundo, o cineasta “senta-se, filma e o espectador é que tira as suas próprias conclusões”.

Desvio, de Tiago Afonso – Selecção Caminhos (2019)

O realizador Tiago Afonso vai ter o filme “O Desvio” (2018) exibido na sexta-feira, às 17h30 na Seleção Caminhos. O filme é uma homenagem ao punk que segue dois percursos erráticos que, segundo o cineasta, a sua única relação é passar-se ao mesmo tempo, no mesmo espaço.

Por Diana Ramos