Crónica Abertura

– Crónica de Opinião –

Em 2010 abrem-se as portas para os Caminhos do Cinema Português com chave de ouro. Isto pois a noite de abertura do festival contará com a exibição do filme “Embargo”, produção maioritariamente feita na cidade de Coimbra, onde o festival se realiza anualmente. O novo trabalho de António Ferreira, que já nos presenteou com obras como “Respirar (Debaixo de Água)” (que também terá uma exibição especial no último dia do festival) e “Esquece Tudo o que te Disse”, é não só prova evidente do vasto contributo que a capital dos estudantes pode providenciar ao cinema nacional, mas também um excelente fruto criativo da ficção cinematográfica portuguesa actual.

A trama, adaptada de um conto de José Saramago, aborda a história de Nuno, o inventor de uma máquina que promete revolucionar a indústria do calçado e que, na véspera de um encontro de negócios crucial para o seu futuro, vê-se numa situação algo carismática (e surreal) que firma-se como obstáculo ao futuro que deseja para si e a sua família, num futuro afligido por uma crise marcada pela escassez de gasolina.

O filme, que muitos já classificaram como uma homenagem às comédias dos irmãos Coen e louvaram como uma das melhores adaptações dos escritos de José Saramago, acaba por ser muito mais que isso, pois desafia classificações e/ou géneros (nos tempos que correm, em que a falta de originalidade da sétima arte começa a ser palpável, tal é notável) e evoca um mundo pós-apocalíptico, em que a sátira e a criatividade andam de mãos dadas a mil à hora. Ao abordar uma visão algo metafórica da sociedade, mas com os pés assentes na cultura mundana portuguesa, o argumento da autoria de Tiago Sousa consegue criar e desenvolver um mundo próprio do conto original de Saramago em que se baseia.

Nesse cenário, é narrada uma história em que o desejo do homem comum de conseguir uma vida melhor é o centro fulcral de uma comédia dramática que consegue capturar até mesmo o mais desinteressado dos públicos. Tal deve-se à realização de António Ferreira, que envereda por um estilo visual bastante único no cinema nacional, embora mantendo um ambiente acessível a todos. O timing cómico e o ritmo narrativo presentes em “Embargo” são impecáveis e reveladores de um teor criativo bastante pessoal, que demonstra um artesão do cinema nacional em clara ascensão. Destaque também merecido ao elenco de actores, sucinto mas competente, que conferem emoção e suscitam empatia às personagens que encarnam e ao mundo que retratam. Sobretudo o actor Filipe Costa, que retrata na perfeição o protagonista, enquanto herói tragicamente afligido pelo mundo em crise que o rodeia. Por último, é de se louvar a banda sonora (da autoria de Luís Pedro Madeira) que confere um tom próprio ao filme.

Por mais que se possa falar do filme “Embargo” (e, de facto, a quantidade de pormenores que o filme comporta fornece papel onde se podem redigir várias opiniões e/ou debates) o bom mesmo será experienciar o filme numa sala própria de cinema e já que não se encontra mais em exibição nas salas comerciais (depois de várias semanas em que afluíram bastantes espectadores), é de se aproveitar a exibição de hoje à noite no TAGV para ver (ou rever) um dos grandes projectos do cinema nacional deste ano.


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