17/11/2020, 17:30 – Cinema Avenida
Numa das suas últimas entrevistas, Almada Negreiros afirmou, “ir ao encontro de um cânone. Eis a razão de todo o meu trabalho.” A sua carreira caminhou de encontro a uma abstracção matemática, a que o próprio intitulou de relação 9/10: uma das várias representações do cânone que definia (segundo ele) o labor artístico em todas as épocas e civilizações. O apuramento geométrico é evidente em várias das suas obras dos anos 1960, em particular na série composta por “Porta da Harmonia”, “O Ponto de Bauhütte”, “Quadrante I” e “Relação 9/10”. Sophia de Mello Breyner Andersen escreveu, sobre estes quadros, que eram “a pura síntese, a leia da proporção e da harmonia, que está presente em todas as coisas que estão certas.” 09/10 foi igualmente o ano lectivo em que iniciei, contra a minha vontade, uma passagem de cinco anos pelo Instituto Superior Técnico, onde me formei em Matemática. Para lá chegar usei diariamente a estação de metro do Saldanha, onde foram reproduzidas essas e outras obras do pintor. “9/10” é uma revisitação, uma década depois, a um lugar de revolta e mágoa, onde contraponho ao rigor dos números o desvario de uma câmara Super8, o desfoque dos planos, o desequilíbrios dos enquadramentos, a aleatoriedade de uma revelação caseira e a arritmia de uma montagem desregrada. Um nota de caos contra a exactidão. Projecto desenvolvido no âmbito do Workshop Super8 na Ar.Co e do Curso Livre “Geometria e Composição na Obra Abstrata de Almada Negreiros”.
In one of his last interviews, the painter Almada Negreiros stated, “to find a canon. That is the purpose of all my work.” Throughout his career he pursued mathematical abstraction, which he himself summed up into the 9/10 relationship: one of the various representations of the canon that defined (according to him) the artistic nature of any work in all ages and civilizations. The geometric refinement is clear in several of his pieces from the 1960s, in particular in the series composed by “Porta da Harmonia”, “O Ponto de Bauhütte”, “Quadrante I” and “Relação 9/10”. 09/10 was also the academic year in which I began, against my will, a five-year stay at Instituto Superior Técnico, where I graduated in Mathematics. To get there I used the Saldanha metro station daily, where these and other works by the painter were reproduced. “9/10” revisits, a decade later, a place of revolt and hurt, where I now take my revenge against the exactitude of the numbers with a raving Super8 camera: blurred shots, imbalanced framing, randomic revelation processes and arrhythmic editing. A note of chaos against accuracy.








