A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-012.jpg

«A Memória do Cheiro das Coisas», de António Ferreira, por Vasco Andrade

Para esta edição do Caminhos, procurámos convidar pessoas — não necessariamente ligadas ao cinema — que pudessem oferecer diferentes leituras sobre os filmes apresentados. É um esforço consciente para aproximar a comunicação do festival dos vários públicos a que se destina e ampliar os modos de ver e pensar cinema. Vasco Andrade escreveu sobre o filme que vai ser exibido no dia 19 de novembro, quarta-feira, às 21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente..

 

Há relações que chegam como tropeções — inesperadas, desalinhadas, quase incómodas — mas que ainda assim abrem portas interiores que nem sabíamos estar trancadas. São encontros que não escolhemos, mas que, por um capricho do destino, acabam por nos devolver pedaços nossos que julgávamos perdidos. A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira, é precisamente um filme sobre esse tipo de ligação: inesperada, indesejada no início, mas capaz de iluminar um canto escuro da existência com a luz mais improvável.

Um homem gasto, não só pela idade, mas sobretudo pela persistência da memória, recusa-se a ceder o último território que ainda controla: o seu próprio ritmo de existir. Há nele uma melancolia teimosa, uma dignidade ferida, um olhar que parece sempre medir a distância entre o que foi e o que já não pode ser. Por de trás desse olhar repousam ecos de traumas antigos, vestígios de uma guerra que não terminou com o silêncio dos combates: a lembrança de amigos perdidos, o cheiro da pólvora, os gritos que ainda o acordam no meio da noite. Cada gesto simples, cada escolha quotidiana, carrega consigo o peso desses fantasmas que, mesmo depois de décadas, insistem em marcar o seu tempo e o seu espaço.

Aos poucos, o protagonista percebe que a sua recusa do lar não é apenas sobre o espaço em si, mas sim sobre o medo de perder a última réstia de identidade. A maneira como vê a sua cuidadora transforma-se nesse processo. De figura intrusiva, ela passa a ser uma espécie de guardiã involuntária das suas pequenas memórias, alguém que não o reduz ao que já não consegue fazer, mas que o escuta no que ainda consegue sentir. Não é amor, não é amizade, é algo mais frágil e mais raro: reconhecimento.

Nesta relação temos um gesto que se torna quase um ritual. A funcionária nunca se esquece de comprar cigarros ao velho. Um ato tão simples que, nas mãos de António Ferreira, ganha o peso de um pacto silencioso. Não é cumplicidade, nem rebeldia. É cuidado na sua forma mais contraditória. Comprar cigarros a um homem que envelhece é, ao mesmo tempo, alimentá-lo e deixá-lo escolher o seu próprio fim. Ela sabe que ele não precisa deles apenas para fumar, precisa deles para se lembrar que ainda tem vontades, vícios. Nesse pequeno contrabando de liberdade, os dois dizem mais um ao outro do que nas conversas que raramente têm.

Quando o velho enfim se deixa ir, percebemos que a morte não o leva sozinho. Leva apenas o corpo, porque tudo o resto já tinha sido devolvido, com inesperada delicadeza, por quem soube acompanhá-lo até ao último fôlego.

 

 

Vasco Andrade nasceu e vive em Coimbra. Tem 17 anos e é aluno do 12.º ano, preparando-se para ingressar no curso de Direito da Universidade de Coimbra no próximo ano letivo.

Apesar da escolha académica, sempre cultivou um forte interesse pelas áreas criativas. Leitor atento e escritor entusiasta, desenvolveu desde cedo uma paixão profunda pelo cinema, que hoje explora através da análise crítica e do contacto com novos filmes e cineastas.