Cerimónia de abertura dos 24 Caminhos: da comédia ao drama

Nesta primeira noite da 24ª Edição de “Caminhos do Cinema Português”, o ponto de encontro foi o Teatro Académico Gil Vicente (TAGV). Com as portas abertas ao público, não demorou muito até que a multidão começasse a convergir para o que seria o início de um belo serão. De estudantes a profissionais, dos mais curiosos aos mais experientes, o festival acolheu, de braços abertos, cinéfilos de todas as idades. Da mesma forma, a sétima arte viria, como se percebeu pelo ambiente vivido, a ser acarinhada por todos os seus amantes que por cá passaram. Acabada de chegar à cidade dos estudantes, sua velha conhecida de edições anteriores, a magia do cinema português voltou a fazer-se notar.

Uma vez na sala de espetáculos, o público foi presenteado com um belo número de luzes realizado por Hikarium. A cargo de Carolina Santos e Diogo Carvalho, seguiu-se uma breve apresentação do Caminhos, prémios e seus apoiantes. Por último, mas não menos importante, o discurso do diretor, Vitor Ferreira, e do vice-diretor Tiago Santos. Sem grandes delongas, as palavras de ambos fizeram-se ouvir por uma plateia entusiasmada. Após agradecimentos aos (muitos) apoios e algumas (fortes) críticas à forma como o Festival é visto pela Câmara Municipal de Coimbra, a sessão por que todos esperavam pôde finalmente ter início.
Os Caminhos abriram com a curta-metragem “Como Fernando Pessoa salvou Portugal”, da autoria de Eugéne Green. Alternando entre comédia e alguma realidade, o filme conta a história de Fernando Pessoa e da oportunidade que viria a mudar a sua vida. A recém importada bebida “Coca-Louca” necessitava de um slogan. O patrão de Fernando, conhecedor das capacidades literárias do empregado, encarrega-o de criar a frase que faria do produto um bem muito desejado pelo consumidor. Contudo, Pessoa não conseguiu estar à altura da tarefa e esta acabou por recair sobre Álvaro de Campos.

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” – não havia como falhar. A frase foi um sucesso. Porém, nem todos estavam satisfeitos. O Governo de Portugal acreditava tratar-se de uma bebida do Diabo e apressou-se a proibi-la na nossa nação. Com isto, é emitido um mandato de captura para Álvaro de Campos, tamanha era a afronta ao seu berço. Fernando Pessoa, por outro lado, tornou-se um herói. Como? Terá de ver o filme para descobrir.

A segunda parte desta sessão da noite contou com a apresentação do filme “Caminhos Magnétykos”. Baseado na obra de Branquinho da Fonseca, foi Edgar Pêra o responsável pela adaptação cinematográfica. A premissa do filme é simples. Num futuro não muito distante, está instaurado em Portugal um governo fascista, eleito democraticamente, que sofre contínuos “ataques” por parte de quem se opõe ao regime. Edgar Pêra afirma ter começado a pensar no filme há vários anos e acrescenta ainda que “na altura, a ideia era criar um filme de ficção-científica”. Contudo, “12 anos depois, com a ascensão de forças fundamentalistas pelo mundo inteiro, a história é quase hiper-realista.”

Dominique Pinon, ator francês que interpreta Raymond, a personagem principal, afirma ter sido um filme muito difícil de representar. Porém, não esconde a admiração que tem pelo realizador. “Se o filme foi tão fisicamente exigente, foi devido à criatividade poética que Edgar deu à história”.

Após uma exibição que deixou o público feliz por ter passado a porta do TAGV, a equipa técnica esteve disponível para responder a algumas perguntas. O realizador, ao ser questionado sobre a mensagem que pretende passar com o filme, rematou com “prefiro antes saber a sua opinião, é mais interessante”. Num discurso bem conseguido, o Edgar Pêra deixou uma última mensagem a todos aqueles que iniciam agora a sua aventura por estes caminhos: “Filmes são imagens e sons que despertam sensações diferentes em cada um de nós, a forma como nos tocam é indizível”.

Por: Francisco Madaíl