Transe, de Teresa Villaverde

Transe é um dos principais filmes no cartaz dos Caminhos. Contudo, a sua exibição foi marcada pelo azar dos azares, quando surgiu um problema insolúvel já próximo do final do filme. Um corte de electricidade em toda a Praça da República – afectando assim o TAGV – impossibilitou a exibição dos últimos minutos do filme. Restou portanto a consolação de Transe não ser um filme de detectives, mas sim a última obra de Teresa Villaverde, com a elaboração visual que lhe mereceu novo prémio para a fotografia no festival de cinema de Lecce, em Itália.

Ou seja, se apenas tivéssemos aos primeiros dez minutos do filme – ao invés de perdermos os últimos dez -, ainda assim não haveria motivos de descontentamento. De certa forma, o filme inteiro encontra-se inscrito em cada plano de forma muito densa, tal é a intensidade de Sónia, a personagem que é arrastada duma ponta à outra da Europa, para conhecer o inferno nos locais mais improváveis, como Itália – “… pizza, gelados…” diz uma personagem -.

A actriz principal do filme volta a ser Ana Moreira que parece ter nascido para fazer cinema. Aos vinte e cinco anos, esta actriz denota uma capacidade para encarnar personagens altamente invulgar no cinema português. É muito difícil, ao ver o filme, acreditar na sua nacionalidade portuguesa. Ana Moreira absorve Sónia e esta toma conta de Ana Moreira de forma implacável, colocando o seu corpo, o seu rosto, as suas expressões em piloto automático ao serviço de Sónia, rapariga russa de São Petersburgo.

A forma de Teresa Villaverde abordar este filme encontra-se ligada à forma como decidiu transformar o interior de Sónia numa âncora estável. Ou seja, à medida que, no percurso decadente de Sónia, tudo desmorona numa revelação infernal, percebemos que esta mantém uma coesão interior, uma espécie de plano b psicológico que lemos na frieza do seu olhar, na persistência cega das suas atitudes. É sobre esta coesão desesperada que Teresa Villaverde assenta o universo onírico presente comummente nos seus filmes. Uma das formas curiosas de afirmação deste universo é a forma como as cores acompanham o percurso pela Europa. Assim, despertamos para o filme no branco russo, onde todas as coisas tendem a se dissolver. Descobrimos o amarelo apenas na Alemanha, pontuada pelo verde das batas que as empregadas usam. E o percurso decadente de Sónia é completado pela sua passagem por Itália, marcada de forma violenta por azul bolorento que brota das paredes abandonadas, da maquilhagem imposta e dos próprios olhos de Sónia/Ana Moreira, que por esta altura, já não dispõem de alma para os animar. Estas são também as outras cores da outra Europa que Teresa Villaverde quis retratar…


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