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Abertura da 32.ª Edição do Caminhos do Cinema Português: O Cinema como Ato de Memória e Resistência

O grande ecrã volta a iluminar-se em Coimbra para mais uma edição do Caminhos do Cinema Português, e este ano a abertura do festival reflete a urgência e a necessidade da visão feminina na luta pela liberdade e igualdade, indo muito além da simples celebração cultural.

Numa altura em que o debate sobre a memória, a liberdade e a justiça social surge no espaço público, a 32.ª edição escolhe olhar de frente para a nossa história e para o papel transformador da imagem. Depois do Warm-up, o festival  arranca no Teatro Académico Gil Vicente com a curta-metragem de animação “Virgem Fandango”, de Marcy Page, que conta a história de uma Maria rebelde, que une a sua voz às de mulheres célebres da história na luta pela igualdade. Na mesma sessão, exibe-se em  antestreia, “Mulheres de Abril”, a mais recente obra da realizadora Raquel Freire. Este documentário ergue-se como uma homenagem essencial e tardia às mulheres que resistiram ao regime e que ajudaram a edificar as bases da nossa sociedade democrática (muitas vezes relegadas para segundo plano nos registos históricos convencionais). 

Até hoje, a narrativa tradicional da luta contra a ditadura e da construção do 25 de Abril tem sido predominantemente contada no masculino – focada nos capitães, nos estrategas políticos e nas grandes figuras públicas dos manuais. “Mulheres de Abril” vem corrigir essa fratura histórica, dando voz, rosto e devido reconhecimento às mulheres que resistiram ao fascismo, enfrentaram a PIDE, suportaram prisões, o exílio, a clandestinidade e que construíram, nos alicerces da sociedade, a liberdade de que hoje beneficiamos.

O peso desta obra ganha uma dimensão ainda mais visceral e comovente ao lembrar o papel fulcral destas mulheres na Universidade, nomeadamente durante a monumental Crise Académica de 1969. Numa época em que a academia, com destaque para a nossa  a academia coimbrã, fervilhava de contestação e rebeldia contra o regime autoritário, as estudantes de Coimbra estiveram na linha da frente da resistência estudantil. Nas ruas da cidade dos estudantes, nas assembleias clandestinas e nos plenários da Faculdade de Letras e de Direito, estas mulheres desafiaram o machismo estrutural da época e a repressão fascista, transformando o espaço académico num foco de agitação revolucionária. 

Trazer este filme a Coimbra, e tê-lo na sessão de abertura do festival, é, por isso, um regresso a casa carregado de significado. É reconhecer que a história da liberdade em Portugal também se fez, de lápis na mão e coragem no peito, nos corredores e nas Repúblicas de Coimbra. 

A presença deste filme de Raquel Freire no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) sela este compromisso com um cinema que não se esgota no estético, assumindo-se como um verdadeiro manifesto pela memória coletiva, pela justiça social e pela igualdade. Para além disso é a representação da memória viva do símbolo feminino, com a presença de duas protagonistas do filme, mas também da revolução de Abril e da crise académica coimbrã, Ruth Rodrigues e Isabel do Carmo, que vão estar presentes no visionamento do filme. 


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