Caminhos do Cinema Português

Pelas ruas de uma loucura (des)conhecida

Mesmo estando quase a chegar ao fim, o Festival Caminhos do Cinema Português não para de surpreender. Desta vez, presenteou os seus espetadores com uma história que não deixou ninguém indiferente, “Praça Paris”.

A história de Glória, fortemente perturbada pelo passado que teima em não a deixar. Visita todos os dias o irmão, preso. Recorre a uma terapeuta, Camila, para conseguir lidar melhor com tudo aquilo que foi e ainda é a sua vida. Portuguesa no Brasil, a ter contacto com a realidade daquelas que são as histórias que queremos sempre acreditar que não são verdade. Uma favela como as conhecemos. Uma estudante de psicologia que se envolve demasiado com a história da cliente e fica entregue, de forma assustadora, ao medo.

De acordo com Gonçalo Galvão Teles, coprodutor do filme “Praça Paris“, a intenção da realizadora, Lúcia Murat, passava por “mostrar o medo com que as os brasileiros vivem e os tempos difíceis que se avizinham”. Contou que o filme estreou dois dias antes das eleições no Brasil acontecerem e que, por isso, viram nele uma excelente forma de mostrar como funcionam as coisas em tempos complicados.

Uma das mais apreciadas características do trabalho de Lúcia Murat prende-se com o facto de a realizadora tentar manter sempre o máximo de contacto direto com as pessoas e produzir com não-atores. Estabelecer uma proximidade, de forma a “levar o cinema até onde ele não existe” e por se tratar de uma “arte que deve abrir todos os caminhos possíveis”. Enquanto roteirista do filme, Lúcia Murat retratou na história aquela que é, para si, a realidade atual.

Durante a sessão, surgiu a dúvida da razão que levou à escolha do título. Gonçalo Galvão Teles explicou que “havia inicialmente uma coprodução entre o Brasil e França, havendo assim algumas rodagens em Paris”. Associado a isto, conjugaram no título “o desejo de sair, de pensar que as coisas podem ser melhores”.

Ana Paula, estudante de psicologia, considerou que o filme é essencial por retratar tão subtil a forma como um profissional lida com as questões éticas, como funcionam as favelas no Rio de Janeiro e a forma como um terapeuta digere as histórias dos pacientes, que acabam por passar a ser suas também. A forma como Camila lida com Glória e, posteriormente, consigo mesma, espelha aquilo que é a tentativa de resolução de um problema, estando dentro de um cenário violento.

Se pudesse descrever o filme numa só frase, Ana Paula diria “Como é lidar com a relação terapeuta-cliente num ambiente agressivo, as corelações entre si e a subjetividade de um terapeuta num meio transversal”.

Ana Sofia Neto