Os primeiros passos dos criadores do amanhã

Foi num ambiente de intimidade que foi possível assistir à exibição de sete ensaios na sessão das 17h30 do dia 27 de novembro nos Cinemas NOS do Centro Comercial Alma Shopping. Foi na diferença de cada um dos ensaios que se fez perceber a importância de mais uma edição dos Caminhos do Cinema Português (CCP).

Son of a Dancer”, de Georges Hazim, foi o primeiro ensaio exibido. A narrativa de um jovem de 20 anos que perdeu recentemente a sua mãe, trouxe através de o silêncio entre o protagonista e o seu pai, a verdadeira história de vida da sua progenitora. Dança do ventre era a sua ocupação. Através do detalhe do apartamento, que às escondidas do filho ocupava, deu a conhecer pouco desta história que levou o próprio jovem a vestir-se como igual. Leonardo Martinelli, realizador do segundo ensaio exibido teve a ousadia de trazer à XXIV edição dos CCP um falso documentário. Ao transportar a audiência para um Brasil onde as cores foram cortadas, devido à crise económica e social, é numa crítica disfarçada que o realizador do ensaio “Vidas Cinzas” transmite a mensagem de que “a cada morte na favela, a cada ato de corrupção, o Rio de Janeiro perde uma cor”.

A história de cinco sobreviventes após a colisão de um submarino e um barco sueco é o primeiro filme inquietante da sessão. Com o término da exibição numa narrativa aberta, foi com a realização de Gokhan Kaya, que o acender de um cigarro numa sala onde o oxigénio já era escasso, invocou o público para a interrogação da esperança do resgate. “Give me a Lighter” dá nome ao ensaio, que numa perspetiva trágica traz no seu guião o livro de Victor Hugo, “O último dia de um condenado”. Lusia Zhai, autora do ensaio intitulado “Obsession” repudiou o público ao narrar a história de uma mãe e filha não tinham qualquer cuidado dentário. Fruto do amor, a filha, de seu nome Meg, resolve fazer justiça com as próprias mãos. A necessidade de conquistar o rapaz com um sorriso aparentemente perfeito, faz com que reabra o passado para enfrentar o presente com uma nova dentição.

A Língua Portuguesa tomou o seu lugar e foi a vez de Gonçalo Viana trazer ao público o sorriso confuso de uma “Aula de Natação”. Trazido o tema por entre uma conversa de paragem de autocarro, foi nuns sofás inventados da casa de uma jovem que três senhoras acabaram por fazer uma corrida de 50 braçadas Bruços.

Kostantin Alexandrov foi o responsável pelo filme mais desassossegado. “Man of the Venice of the North” trouxe consigo um desfile de moda interrompido pela presença de uma personagem mascarada com um comportamento perturbador da tranquilidade do momento. Será uma crítica ao comportamento humano pela forma como ele se altera quando descobre quem está por de trás de uma máscara?

Receptor” foi o último ensaio produzido. Emmanoel Ximendes, trouxe ao ecrã duas personagens complementares. Um homem com um saco na cabeça onde apenas os olhos eram visíveis e um homem vencido pela idade e o cansaço que não tinha olhos que o identificassem. “Quem és?” foi a pergunta mais repetida durante a gravação. A crítica, tal como o próprio ensaio invoca, trouxe consigo a dúvida de se estar perante uma única personagem ou das vivências comuns de dois indivíduos.

Os Ensaios caracterizam-se por ser produzidos em contexto académico, num espaço para todos os realizadores, que, em Portugal e a nível internacional, ambicionem ser criadores de amanhã.

Rita Flores