Caminhos do Cinema Português

O Caminho do “eu” numa geração virtual

Para fechar a Seleção Ensaios, as novas tecnologias juntaram-se à solidão e ao conhecimento do “eu” às 17h30, na sala 6, dos Cinema NOS, no dia 1 de dezembro, propondo uma reflexão que a atualidade exige.

Sleepless Nights…” de Maria Teixeira, “Irony” de Radheya Jegatheva, “Bruma” de Sofia Cachim , “O Chapéu” de Alexandra Allen, “Him&Her” de Nathalie Lamb, “Homesick” de Hila Einy, Yoav Aluf, Noy Bar e Bezalel, “Zeitgeist” de Oleg Kauz, “A Sweet Story” de Moritz Biene, “Drowning”  de Pedro Harres e “Soulkeeper” de Théo Hoch foram as curtas que se reuniram no grande ecrã da sala de cinema. O controlo tecnológico, o medo do desconhecido e o desejo da aprovação social foram alguns dos temas centrais de uma tarde repleta de virtualidade.

Falemos, apenas, de algumas das animações que, talvez pela abordagem mais direta, criaram momentos mais reflexivos. “Irony” foi uma das curtas que mais impactou ao falar sobre o poder das tecnologias, nos dias de hoje. Abordou temas como a ausência de liberdade de que não temos noção quando navegamos no pequeno ecrã. Idealizamos uma tecnologia que nos garante liberdade , liberdade essa que não é real, sendo que, quando mergulhamos nas consequências da digitalização, compreendemos que vivemos “presos” aos ecrãs que, entre outros efeitos, moldam a personalidade de cada um de nós. O medo da rejeição social tem-se apoderado e condicionado as posições que tomamos quando estamos perante o imenso universo que, embora não saibamos ao certo, desconhecemos: a Internet.

Drowning” acaba por ser também outra animação que nos coloca no campo da digitalização como controladora da vida real. Passados alguns minutos da exibição de “Irony”, voltamos ao tema da reprovação social, agora com uma pitada de solidão. Há uma forte intenção de mostrar ao espetador que, na era da Internet, fomos colocados dentro de uma bolha invisível e que agimos em conformidade com aquilo que essa bolha espera de nós. Deixámos que a euforia da tecnologia definisse aquilo que somos e agimos apenas de acordo com aquilo que queremos que os outros pensem de nós. Acabamos, talvez, por deixar a questão da verdadeira personalidade fora dessa bolha e, consequentemente, desagregada de nós mesmos.

Para terminar a sessão, não podíamos pedir mais que um filme que nos coloca na verdadeira realidade virtual. “Soulkeeper” conta a experiência de Vicent, o protagonista na filmagem de um videogame com a interpretação de um cavaleiro de volta dos mortos. Haverá mais virtualidade que a imersão na concretização de um jogo?

Nos entretantos, as curtas não especificadas acima foram colocando questões relacionadas com a identidade e a sua perda, a solidão associada ao medo do desconhecido e, acima de tudo, mensagens que encorajam à ultrapassagem de todos os pânicos que nos vão sendo colocados na vida real. A libertação do “eu” e a aceitação do agora podem ser interpretadas como recados nas entrelinhas para que, numa geração virtual, olhemos mais em volta e comecemos a questionar mais sobre o piso em que realmente assentamos.

Rita Ferreira