Caminhos do Cinema Português

Da intensidade à leveza: Três olhares sobre o abandono

Numa plateia maioritariamente marcada pelo público jovem, aguardava-se por “Leviano“, no entanto “Aquaparque” e “3 Anos Depois” superam as expectativas do público presente.

A noite de dia 28 começou com a curta-metragem “Aquaparque”, a estreia de Ana Moreira enquanto realizadora. Com um velho parque aquático como pano de fundo, ficámos a conhecer dois jovens que ali se refugiam do mundo real. Por entre olhares e silêncios revelam os seus mais íntimos sentimentos, em breves minutos que se desfecham de uma forma trágica.

Ana Moreira marcou a curta-metragem que se seguiu, mas desta vez enquanto atriz. “3 Anos Depois”, de Marco Amaral, emergiu-nos numa atmosfera densa e escura que contrasta com breves momentos de calor, um inverno rigoroso numa casa humilde.

É neste ambiente que uma mãe regressa, após anos fora e confronta-se com a mágoa e indiferença dos que deixou para trás.

Marco Amaral, que marcou presença na sessão, procurou explorar o conceito de mãe através de uma perspetiva meramente afetiva, colocando a questão, “Quem é a verdadeira mãe daquela criança, 3 anos depois? Acrescentou ainda que o conceito de “falta de acesso” marcou a sua narrativa.

A noite terminou com o aguardado Leviano, do realizador luso-canadiano Justin Amorim.  No seio de uma abastada casa algarvia, Justin explora a futilidade e imoralidade de uma família corrompida pela fama e pelo dinheiro mas acima de tudo pela falta de uma relação estável.

É a partir do desaparecimento da mãe, que abandona as filhas durante um ano, que nos apercebemos do papel fulcral da figura materna no equilíbrio desta família que vive para as aparências mas que rapidamente revela a sua fragilidade.

Justin Amorim traz-nos uma perspetiva fresca que se afasta do comum filme português e se aproxima da estética norte-americana, tendo como grande inspiração as obras de Sofia Coppola. Esta nova perspetiva foi marcada pela abertura do realizador, repetidamente elogiado pelo elenco, que parece começar a trazer ao cinema português uma nova era de partilha e aprendizagem mútua entre realizador e atores.

Nas perguntas e respostas destacou-se a reflexão da atriz Mihaela Lupu sobre a pequenez do meio cinematográfico português que compele os atores a agarrar qualquer oportunidade, acabando por ter de fazer parte de projetos mesmo que não os realizem artisticamente.

Abandono, papel materno e crise de valores sobressaem numa noite que flutuou entre o intenso e o leve, sem nunca esquecer temáticas relevantes e propensas à reflexão.

Carolina Santos