Caminhos do Cinema Português

Crónica do Festival – II

“Só posso dizer que não há palavras para descrever a atividade e a felicidade no rosto das centenas de crianças que enchem as sessões. Há de facto coisas na vida que não têm preço e esta é sem dúvida uma delas.” Foi com estas palavras que Viviana Andrade descreveu a primeira sessão dos “Caminhos Juniores”, que é uma das atividades que coordena e que inaugurou, às 10.00h na sala principal do TAGV, o segundo dia do Festival “Caminhos do Cinema Português”. O caminho faz-se caminhando, e a melhor forma de começar o dia é pelo início, ou seja, pela formação de novos públicos para o cinema português.

Às 15.00h, na mesma sala, teve lugar a primeira sessão dia da Seleção Caminhos, onde foi exibida a curta-metragem de animação Das Gavetas Nascem Sons, de Vítor Hugo, à qual se seguiu o já premiado e louvado pela crítica São Jorge, de Marco Martins, o que constituiu uma nova oportunidade de ver este poderoso filme numa sala de cinema. A sessão das 17.30h apresentou três curtas-metragens – A Carga, de Luís Campos, Ferro Sangue, de Fábio Penela e Norley e Norlen, de Flávio Ferreira (que foi uma estreia absoluta em sala) – e um documentário familiar memorialístico de João Nunes, Carta ao meu Avô. Luís Campos e Flávio Ferreira estavam presentes na sessão e acederam ao convite para endereçar algumas palavras sobre as suas obras, pelo que o público, para além de ter ficado a conhecer (nalguns casos “em primeira mão”) alguns dos novos caminhos do cinema português, pode ainda ouvir os depoimentos e as ideias que estão por detrás do trabalho destes novos vultos do nosso cinema. E falando em novos vultos, convém mencionar que no Mini-Auditório Salgado Zenha decorreram as Seleções Ensaios Internacionais (16.30h) e Ensaios Nacionais (18.00h), que foram (e continuarão a ser durante os próximos dias) uma montra do nosso novo cinema.

A sessão das 21.45h, a segunda da Seleção Caminhos, conteve quatro exercícios que em muitos aspetos podem ser descritos como “meta-fílmicos”: a Surpresa que nos trouxe Paulo Patrício, uma animação sobre o modo como uma criança reflete sobre a sua doença, Souvenirs, de Paulo Martinho, que mostra como as cicatrizes do nosso corpo inscrevem nele informações sobre as nossas vidas, O Homem Eterno, de Luís Costa, onde o realizador recupera filmes Super 8 do seu avô e disserta sobre o percurso de ambos no, e com, o cinema, e Histórias de Alice, de Oswaldo Carreira, que explora a forma como podemos (re)construir o nosso passado através das memórias falsas das outras pessoas. Foi, portanto, a melhor forma de terminar o dia: com pensamentos sobre a forma como o cinema motiva novas formas de pensar sobre si mesmo e também sobre nós próprios.

Bruno Fontes, 2017-11-29