Crónicas da Programação – III


15h00
O mundo onírico servirá sempre de inspiração aos nossos artistas, não é por acaso que se despertou automaticamente a temática ‘Sonhar e Ficcionar em Português’, em que o mundo dos sonhos e da ficção criada entram em completa harmonia. O mundo ideal pode, assim, ser sonhado e ficcionado em cinema.
Não é por acaso que começamos a sessão das 15h00 com a animação de José Miguel Ribeiro, ’20 Desenhos e um Abraço’, que nos relata a fuga de um peixe de uma sandes através de 20 desenhos de bolso. Em seguida partimos de uma citação de Miguel Torga sobre a essencia arcaica da Terra e do animal, com a curta-metragem ‘Terra’ de Pedro Lino, que nos leva a descobrir a camada de pó e besta arcaica que podemos ter dentro de nós mesmos.
São vários os pensadores que sonham não com situações específicas, mas com ideais como o respeito, compreensão e aceitação. Vemos isso explanado no documentário ‘Conversas do Mundo’, uma reflexão argumentada por Boaventura de Sousa Santos, colocando homens e mulheres de todo o mundo a reflectir frente-a-frente.
Caminhamos para o fim da sessão com mostra de ficção ampla, com ‘Na Escama do Dragão’ de Ivo Ferreira em que a linha da realidade histórica de um naufráugio e do afundamento do próprio ser é muito ténue, neste caso de um casal.
Terminamos a sessão com ‘Dédalo’ de Jerónimo Rocha, que nos leva ao interior de uma refinaria e nos mostra criaturas estranhas e diabólicas. É um jeito de ligação entre o ficcionar, o fantástico e o terror.
17h30

Abrimos a sessão das 17h30 com chuva no exterior e com o ‘Outono’, de Marco Amaral, dentro da sala do TAGV, acompanhando um rapaz por aquela serra outonal. É a forma de mostrar o estado das gerações, estando muitas delas em revolta interior e externa, com o mote ‘Gerações em Revolta’. Em ‘Lápis Azul’, de Rafel Antunes, vemos uma geração que apesar de ter sido castrada, tinha dentro de si interessantes impulsos culturais e sociológicos – o protagonista descobre a mulher que pensava sempre conhecer, mas através da linha da poesia.
Em ‘Maria’, curta de Mariana Marques, encontramos um casamento forçado, uma família em que conceitos de amor e medo andam lado-a-lado, e que desemboca numa revolta e ciúme. A sessão termina com a longa de Pedro Lino, ‘Um fim do mundo’, onde conhecemos a realidade juvenil do mundo que nos rodeia, com sinais e metáforas do que poderá ser o futuro para eles mesmos.

22h00

A irreverência ainda existe, nem que seja de forma inocente junto dos ‘Meninos do Rio’ de Javier Macipe, que se lançam nas águas do Douro e que intimidam quem nunca o fez. Há uma revolta clara do rapaz que seguimos de perto, pois ele é um desses que nunca saltou, que tem receio, que pondera. Com ‘Miami’ assistimos o outro lado com Simão Cayatte, ao lado extrovertido e sem complexos, mas ao mesmo tempo frágil. Avançando na pirâmide etária, ‘Imaculado’ de Gonçalo Waddington, onde um homem com instintos maternais, vê o seu corpo mudar consoante esses desejos se desenvolvem dentro dele mesmo, como uma criança a desenvolver-se.

João Pais,
Selecção Caminhos