Caminhos do Cinema Português

Entrevista com Victor Candeias

Os Caminhos do Cinema Português arrancaram ontem – sábado – e um dos filmes exibidos foi The End, uma curta-metragem de Victor Candeias. Aproveitamos a presença do realizador para uma entrevista acerca do The End. Contudo, alertamos para a exibição de mais dois filmes de Victor Candeias nos Caminhos. São eles Espírito de Natal (22 de Abril/ 17h30) e o documentário Eduardo Luiz – Retracto do Artista Desaparecido (26 de Abril/ 17h30)

André Martins – Victor, qualquer semelhança entre o Oito e Meio, de Fellinni e o The End, de Victor Candeias, é pura coincidência?

Victor Candeias – O tema principal dos dois filmes acaba por ser algo muito recorrente. Temos aqui alguém que resolveu fazer o filme de determinada maneira, mas partiu em simultâneo da premissa que ocorrerá a qualquer realizador quando se pergunta “o que é que eu faço agora?”.

 

AM – As dificuldades do realizador no filme são as dificuldades do Victor Candeias ou as dificuldades dum realizador imaginário?

VC – É curioso que perguntes isso, porque o filme surgiu a partir duma sequência de imagens e não a partir duma intenção temática. Normalmente, eu parto em função duma imagem. Sinto que existe uma relação entre algumas imagens e descubro a história. No caso do The End houve o início do filme, que foi a primeira sequência de imagens que descobri, até ao momento em que a personagem cai da varanda. Essa é a sequência nuclear do filme e o princípio de todo o processo criativo. Essa problemática da dificuldade de alguém que tenta ultrapassar um bloqueio a direcção que filme tomou.

 

AM – Quando surgiu a ideia de envolver o realizador e as personagens no mesmo plano narrativo?

VC – Eu confesso que em relação às curtas-metragens que tenho feito, elas têm surgido de forma peculiar. Embora sejam construções artificiosas, elas são também um pouco uma viagem aventureira.

 

AM – Há um estilo muito livre que domina esse processo…

VC – Isso surgiu de forma espontânea. Eu acho que as personagens a partir de determinado momento tomam conta do movimento do filme. Parece-me que as personagens a partir de tomam conta do processo de desenvolvimento e eu sinto-me mais como um espectador na altura em que estou a fazer os filmes, porque tento notar aquilo que as personagens oferecem. Torno-me então uma espécie de espectador involuntário. É um processo algo subconsciente.

 

AM – É a partir dessa distância que personagens como a do realizador podem saltar para o filme?

VC – Sim. É claro que existirão intenções, algumas delas até subterrâneas, mas é um processo que corre desta forma. Não é uma construção artificiosa no sentido em que tenho um conceito para seguir. Não é assim que a coisa tem sucedido. Aparecem-me um conjunto de imagens e direcções e vou atrás de onde aquilo me leva. No final da primeira escrita volto a olhar para o filme e aí então há uma análise critica.

 

AM – No início tinha a intenção de fazer um filme que pensasse o cinema?

VC – Não, não tinha essa intenção. Tinha uma sequência que me pareceu conter um filme, porque era muito forte e os seus elementos tinham relação entre si. Senti então que podia desenvolver um filme.

 

AM – Como classificas a narrativa do filme? É um metafilme?

VC – Um bocadinho. Aliás, essa expressão é engraçada. Já me disseram que o argumento era uma metanarrativoa. Eu definiria o filme olhando retrospectivamente para ele, como um jogo com o espectador que utiliza os códigos do cinema clássico. O filme joga com esses códigos, subvertendo-os, alterando aquilo que é a compreensão do espectador. Eu acho que o filme é em certa medida, um filme muito clássico…

 

AM – Por outro lado, também não é nada clássico…

VC – É nesse sentido que eu digo que ele não é linear. Esse é um aspecto que eu achei que no final ia jogar positivamente…

 

AM – Ao optares pelos planos de sequência, fizeste-o de forma a vencer a disparidade entre realizador e personagens?

VC -Sim, eu achei sobretudo que o corte numa série de cenas não ia beneficiar o desenvolvimento das cenas. Quando nós temos um plano sequência, temos vários elementos, ritmo, tempo e a manutenção duma coerência espacial. Foi daí que surgiram os planos sequência. Na rodagem, arrependi-me, porque tecnicamente foi muito doloroso realizá-los. Eu sou muito sensível ao tempo… quando se tem tempo a mais… quando se tem tempo a menos… A forma de transcrever o tempo real para o tempo do cinema é sempre algo que me preocupa muito, sobretudo conseguir encontrar o tempo certo para cada cena. E os planos sequência surgiram neste aspecto como a solução ideal, mas tecnicamente foi complicado.